Liciane Júnia Baltazar se formou em Direito pela Universidade Federal do Paraná (UFPR) em 2001. Posteriormente, concluiu pós-graduação em Mediação, Conciliação e Arbitragem, em 2018, e pós-graduação em Coordenação Pedagógica e Planejamento, em 2022. Em 2020, obteve o título de mestre em Resolução de Conflitos e Mediação pela Universidad Europea del Atlántico, na Espanha. Ingressou no Tribunal de Justiça em 2005. Em 2008, teve participação relevante, juntamente com o desembargador Valter Ressel, na criação da Secretaria de Conciliação, que, em 14 de julho de 2010, foi inserida no regimento interno do Tribunal como Núcleo de Conciliação. Com a Resolução nº 125 do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e a Resolução nº 13/2011 do TJPR, o Núcleo de Conciliação foi denominado de Centro Judiciário de Solução de Conflitos e Cidadania (CEJUSC 2º Grau).
A atual presidente do Tribunal de Justiça, desembargadora Lidia Maejima, então 2ª vice-presidente, organizou a obra História do Cejusc de 2º Grau do Tribunal de Justiça do Estado do Paraná, publicada em comemoração aos dez anos do Cejusc de 2º Grau, com a valiosa colaboração do desembargador Valter Ressel. O livro resgata a origem da unidade e destaca a iniciativa pioneira apresentada, em 2004, pelo então juiz de alçada Noeval de Quadros, que propôs a criação de um Núcleo de Conciliação. A proposta foi acolhida pelo então presidente do Tribunal, desembargador João Luís Manassés de Albuquerque.
Na obra, a desembargadora Lidia Maejima homenageou o seleto grupo de magistradas, magistrados, servidoras e servidores voluntários que atuaram na conciliação, na mediação e em outros métodos autocompositivos, acentuando que a história da conciliação no Paraná diz respeito à solidariedade e à fé em um ideal. “É sobre lutar, mas sem o afobamento e a bravura dos beligerantes; ao contrário, com a paciência e a ternura próprias dos mediadores natos.” A publicação traz, ainda, entrevistas com os colaboradores, que reproduzem diversos casos resolvidos, além de fontes históricas sobre diferentes tipos de litígios solucionados pelo Cejusc de 2º Grau por meio de variados métodos autocompositivos. (Livro, Registro 75680, Centro de Documentação TJPR). No livro, Liciane narra uma de suas experiências como mediadora:
As duas comadres litigavam por meio de uma ação de cobrança, diante do fato de que uma delas não quitou a dívida do empréstimo concedido pela outra para saldar o financiamento imobiliário, quando essa estava quase perdendo o apartamento em que morava. A mediação se desdobrou em duas sessões. Uma das comadres não compareceu à primeira audiência e enviou, em seu lugar, o filho, afilhado da outra. Liciane explicou sobre a necessidade da presença da comadre devedora na ação de cobrança, para que fosse possível a aplicação das técnicas de mediação e redesignou a audiência, solicitando que na próxima sessão estivessem presentes as comadres e o afilhado. O advogado da comadre faltante não entendeu, num primeiro momento, o porquê da necessidade de redesignar o ato, considerando que tinha poderes para representá-la, mas, mesmo assim, concordou com a redesignação. Na segunda sessão, a mediadora lançou mão de diversas técnicas para favorecer a fluidez do diálogo entre as partes e esclarecer um fato de extrema importância, especialmente as sessões privadas, a inversão de papéis e a validação de sentimentos. Isso porque, além da questão posta no processo, acerca da dívida em si, havia questões emocionais ocorridas por conta do conflito que se instaurou por falha de comunicação entre as comadres. A comadre devedora sentia muita tristeza pelo fato de que ela se dispôs a doar parte de seu fígado para transplantar na outra que estava precisando, e esta recusou o grandioso gesto de amizade. No decorrer da conversa, ficou esclarecido que a comadre que rejeitou a doação do órgão não o fez por orgulho ou por conta da dívida, e sim porque ficou com muito receio de acontecer algum infortúnio em relação à saúde da doadora: ‘eu não suportaria se acontecesse alguma coisa com a minha amiga’. Dito isso, a comoção tomou conta de todos os presentes, e o advogado da comadre devedora então disse: ‘agora eu entendi esse negócio de mediação e o porquê da necessidade da presença da minha cliente’. Com pedidos recíprocos de desculpas, as duas comadres se emocionaram e disseram o quanto sentiam a falta uma da outra. Restabelecido o diálogo e a relação de amizade entre as duas, o acordo fluiu de maneira mais fácil. O afilhado se dispôs a arcar com a dívida da mãe e a madrinha aceitou receber os valores em pequenas prestações mensais.
Liciane tem prestado serviços relevantes em diversas áreas do Tribunal de Justiça, participou da estruturação da Escola Judicial do Paraná (Ejud-PR), criada na Presidência do desembargador José Laurindo de Souza Netto, atuando durante quatro anos ao lado da direção-geral da escola. Atualmente atua como consultora jurídica na Corregedoria da Justiça e também auxilia a corregedora, desembargadora Ana Lúcia Lourenço, no desenvolvimento dos projetos “Mediação e Conciliação no Foro Extrajudicial”, “Cartório Acolhedor” e “Foro Extrajudicial em Debate”.
