Os gregos passaram dez anos tentando derrubar uma cidade. Não conseguiram. De repente, desaparecem durante a noite, abandonando um cavalo gigantesco. E, a primeira conclusão dos habitantes, foi: “Até que enfim aprenderam a perder.”
Sempre imaginei a primeira pessoa que viu aquele cavalo. Devia ser um guarda na muralha, esfregando os olhos.
— Meu general, os gregos foram embora.
— Boa!
— Mas esqueceram um cavalo.
— Vivo?
— Não exatamente.
— Descreva o animal.
— Creio que doze famílias poderiam morar nele com conforto.
— Que fofo!
Nesse momento, qualquer civilização razoavelmente desconfiada concluiria que havia algo de muito errado. Entretanto, a História mostrou que um golpe modesto desperta suspeitas, mas uma artimanha monumental inspira respeito.
Veja-se os anúncios de hoje em dia. Se alguém promete ensinar a ganhar R$ 50 por semana, desconfiamos na hora. Mas se garante independência financeira em dois dias, uma ilha particular, e paz interior mediante doze parcelas sem juros, sempre encontra interessados. O cavalo de Troia, sem dúvida, foi o primeiro curso desse tipo da Antiguidade.
As prendas, é sabido, produzem entorpecimento. O cérebro deixa de formular perguntas, como “por quê?” ou “quem pediu isso?”. E concentra-se apenas em assuntos secundários, como por exemplo: “Onde vamos colocar o mimo? No oráculo? Nos banhos?”
Foi aí que Troia começou a perder a guerra.
Inclusive, porque transportar um cavalo daquele tamanho exige extremo esforço. Cordas, alavancas, centenas de homens. E, claro, um chato que nunca carregou nada na vida, mas insiste em orientar os demais.
— Levanta um pouco.
— Empurra, empurra.
— Assim não, Belerofonte!
Pois é, esse indivíduo existe desde a invenção da roda e provavelmente sobreviverá ao fim da civilização.
Enquanto o cavalo avançava pelos portões, alguém deve ter sugerido:
— E se olhássemos lá dentro?
A proposta certamente foi rejeitada por um argumento irrefutável:
— Ora, isso seria uma grosseria!
Existe uma teoria pouco discutida segundo a qual a etiqueta já causou mais prejuízos históricos do que a varíola. Quantas tragédias poderiam ter sido evitadas se alguém tivesse se sentido à vontade para dizer: “Agradecemos muito o presente, mas vamos serrá-lo ao meio antes de aceitar.”
Sim, havia Cassandra. Toda família, toda empresa e toda cidade possui uma Cassandra: aquela pessoa desagradável cuja principal ocupação consiste em fazer previsões que ninguém quer ouvir. Ela talvez tenha passado a manhã inteira repetindo:
— Não botem esse bicho aqui dentro.
Ao que responderam:
— Nossa, mas você vê conspiração em tudo.
É uma frase curiosa. Sempre é pronunciada minutos antes de uma carnificina avassaladora.
Quando anoiteceu, e os soldados gregos desceram do interior do cavalo, suponho que os troianos tenham experimentado um daqueles silêncios profundos que só ocorrem quando uma hipótese absurda se concretiza.
Um oficial deve ter suspirado:
— Bom, da próxima vez, vamos aceitar só um buquezinho de flores.
Não houve próxima vez. A guerra terminou e nasceu uma tradição que permanece válida até hoje: descobrir que era um golpe somente quando o golpe abre a porta por dentro.
Carlos Castelo é compositor, frasista e sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo.
