Ivone Gradowski | Série A palavra (acrílico sobre tela: 0,60 x 0,60)

 

No ano passado, resolvi organizar um livro de poemas. Livro modesto, edição do autor, para dividir com amigos um pouco das coisas que escrevo e um pouco do custo da publicação. Prefiro assim, sem pompas e sem os aborrecimentos provocados por certas editoras contemporâneas, que se dispõem a publicar tudo o que nós, escritores, lhes apresentamos, movidas exclusivamente por interesses comerciais. Talvez eu esteja errado, seja rigoroso demais ao generalizar, mas a falta de avaliação crítica, confundida com “democratização” do mercado editorial, ou anunciada como contraponto ao desprezo dos grandes grupos que dominam o setor, me incomoda. Fico, então, com a minha pequenez, satisfeito por deixar um legado a quem se interesse, se houver alguém que se interesse. O pior que pode acontecer, na hipótese provável de uma indiferença coletiva, será o repouso longo e involuntário dos meus livros numa prateleira qualquer, que o tempo haverá de consumir. Que seja.

A ideia do livro, eu dizia, surgiu no ano passado. Nesse período, revirei meus arquivos em busca de alguns escritos guardados na memória, papéis amarrotados, esboços de crônicas, contos e romances que nunca terminaram, depois transformados em versos. Finalmente, classifiquei o material em dez partes, cada uma dedicada a um tema: o amor, a política, o ato de existir, a solidão e assim por diante. Tudo ficou pronto em janeiro ou fevereiro, não me lembro bem. Ou nem tanto.

O original está lá, na tela do computador, e eu o visito de vez em quando, para acertar pequenos detalhes. Como num delírio permanente e shakespeariano, o meu olhar de poeta, “do céu para a terra, da terra para o céu”, continua a movimentar o conteúdo da obra: desloca os poemas de lugar, acrescenta pontos e vírgulas, corta versos e escreve outros, sem o peso das armas e da opressão, e se recusa a ingressar nas novas etapas que antecedem o final. Por que estou travado? – fico a me perguntar.

Não tenho a resposta, mas desconfio. Entre as intermináveis revisões que fiz, em todas elas parei num poema específico, que mistura política e cotidiano, passado e presente, e que é um dos mais antigos da coletânea – acho que tem quase quarenta anos de existência. Dois versos largados ali me chamam a atenção. Eles falam sobre as imposições do mundo moderno, com suas marcas publicitárias e seu consumismo desenfreado, e sobre conceitos plantados na minha cabeça, que um dia foi jovem, na tentativa do “sistema” de me enquadrar ideologicamente. O ritmo desses dois versos – míseras e pequenas linhas que me atormentam – parece correto, mas sinto que lhes falta coerência lógica. Para resolver o impasse, mudo as palavras, mas com isso perco a musicalidade do conjunto. Mexo, remexo, passo adiante e retorno ao mesmo ponto. Quando observo o resultado, encontro o poema tal como estava no início.

Assim, afetado pelo paradoxo dos meus versos, pelo conflito entre racionalidade e ritmo poético, adio o nascimento do livro. Até quando, não sei. Também não sei se devo insistir em modificar as linhas inquietantes (sinto-me preso ao “quadradismo dos meus versos”, ora pois), se é melhor eliminá-las sem dó nem piedade, se sacrifico o poema inteiro ou se desisto de tudo, em respeito à vocação da minha obra literária: o anonimato.

Fico com o não saber, eis o que sei, e a minha ignorância solitária seguirá enquanto houver emoção, ainda que silenciosa, sem que o mundo se importe – os versos, afinal, me pertencem.