Nací en una ciudad triste
de barcos y emigrantes
una ciudad fuera del espacio
suspendida de un malentendido:
un rio grande como el mar
una llanura desierta como pampa
una pampa gris como cielo
Montevideo 1970
Cristina Peri Rossi
Minhas mãos tocaram respeitosamente alguns volumes ordenados no espaço acolhedor. Estava numa livraria, das que não existem mais na cidade onde nasci, esmagada pela frieza das cavernas de Saramago, caixotes horrorosos feitos para o consumo sem limites e sem razão. Naquele ambiente de conforto, uma publicação me atraiu. Fui a ela. Sem perceber, segurei o livro, formato quadrado e o rosto de uma mulher a se dispersar por toda a capa, em preto e branco, e o encostei no meu peito. Senti como se iniciasse uma conversa que se estenderia por muito tempo, o encontro inesperado entre a personagem retratada ali e a minha curiosidade.
O livro é uma edição comemorativa dos trezentos anos de Montevidéu, completados em 2024, e se chama “Cita en Montevideo”. Publicado pela Estuario Editora, ele reúne, “além de textos em verso e prosa, uma seleção de fotografias e correspondências do arquivo pessoal da autora”. Como destaca a apresentação, trata-se de “um dos intermináveis gestos de regresso a Montevidéu que Cristina Peri Rossi esboçou por meio da linguagem”.
Cristina Peri Rossi. O nome não me soou estranho, embora eu não soubesse quem era, o que acentua uma falha minha, o contato indigente com a literatura latino-americana. Por coincidência, uma matéria na Folha de S. Paulo, que encontrei há poucos dias na internet, se refere a ela, Cristina Rossi, como “a maior autora viva do Uruguai”. Soube, então, que só agora, em 2025, suas obras essenciais começaram a ser publicadas no Brasil. Por enquanto, são duas pela Bazar do Tempo, com tradução de Anita Guerra: “A insubmissa” e “O navio dos tolos” (“La nave de los locos”). E outra, pela Editora 34, “Nossa vingança é o amor”, uma antologia que reúne poemas escritos entre 1971 e 2024.

Capa do livro sobre a obra de Cristina Peri Rossi
Esse atraso coletivo, a dívida brasileira com escritores de países vizinhos, aliviou a minha ignorância. Antes que eu percebesse – ou atribuísse gravidade ao fato de não saber –, já estava completamente envolvido pelo ritmo das crônicas, dos contos e dos poemas de Cristina Rossi. Nascida em Montevidéu no dia 12 de novembro de 1941, filha de um casal de imigrantes italianos, ela se proclamava escritora desde a infância. Na juventude, sua obra começou a ganhar destaque e premiações em meio aos debates que marcaram uma geração de intelectuais sensíveis a acontecimentos como a revolução cubana, a luta contra a indústria das armas e os protestos espalhados pelo mundo na década de sessenta.
A consequência desse engajamento político foi a expulsão de milhares de pessoas de seus países e a consolidação de ditaduras em todo o continente. No Uruguai, o golpe militar de junho de 1973 teve como uma de suas justificativas os conflitos sociais que se intensificavam e provocaram a reação conservadora. Um pouco antes, Cristina Rossi já havia deixado o país, rumo a Barcelona, num navio italiano. Ficaram para trás livros, discos, aulas de literatura, sessões de cinema e a paixão por Montevidéu, suas ruas arborizadas, suas livrarias, seus cafés e sua gente (“não conheço nenhum lugar no mundo onde a conversa cause mais prazer do que em Montevidéu; mas o capitalismo tardio suprimiu a conversa, a considera improdutiva”). O deslocamento apressado – a fuga necessária – foi de uma ditadura para outra: “Quando cheguei em Espanha, governava o ditador Francisco Franco, e a oposição permitida tinha um símbolo de resistência: a revista Triunfo, editada em Madri”. Em torno desse símbolo, Cristina Rossi enfrentou desafios, como fizeram tantas outras pessoas em situação parecida, e sobreviveu com sua arte.
Durante os doze anos do regime de exceção uruguaio, foram inevitáveis as reflexões sobre a derrota: “Os exilados perderam uma guerra, fracassaram; os emigrantes, ao contrário, têm uma ilusão – viver melhor no lugar onde se estabelecem”. Dessa constatação, que poderia vir acompanhada de algum tipo de mágoa, brota um registro sereno: “Quanto às emoções e aos sentimentos, não creio que haja muita diferença entre o que se sente num lugar ou em outro, nem em uma época ou em outra – os rituais ou convenções de sedução variam de um tempo a outro, de um país a outro, mas sempre existem; os poemas de Catulo ou os salmos da Bíblia parecem tão contemporâneos como os de César Vallejo ou os de Alejandra Pizarnik”.
Talvez baseada nisso, e na observação do tempo e das transformações que ele impõe, Cristina Rossi tenha decidido permanecer em Barcelona depois de 1985, quando o pesadelo político cedeu à redemocratização do Uruguai, algo que já havia acontecido na Espanha dez anos antes: “O exílio foi uma paixão, tão forte como o amor, porque, para os obsessivos, o importante é a pulsão, não o objeto. De modo que, quando o exílio acabou, busquei outra ditadura, a do amor”.
Assim foi. Agora eu sei, fascinado por Cristina Rossi e suas palavras, as que me tocaram definitivamente. Palavras reveladoras da síntese do ofício de escrever. Como as que dizem sobre jornalismo e literatura, o cuidado presente em cada letra, na sonoridade e no acabamento artesanal do texto: “Qualquer um dos meus artigos poderá figurar em minhas ‘Obras completas’”. Ou sobre a poesia, inscrita no mesmo conjunto estético, “uma superestrutura, para utilizar um termo marxista, que pode ser um prazer intenso e delicado em épocas de paz, ou inspirador e fortalecedor em épocas de luta”. Advirta-se, porém, que “ela [a poesia] não protege de nada, nem serve para conquistar a paz, nem mesmo para o sustento”.
Olho para o livro, mais uma vez, e o abraço, agradecido pela tarde fria em Montevidéu, a tarde em que me encontrei com Cristina Peri Rossi.
