Há verbos que nasceram para a alta costura. “Ornar” é um deles. É combinar de forma harmônica. A gente pensa em uma cortina de linho que orna com o tapete, ou em um colar que orna com o pretinho básico. É o verbo do encaixe perfeito.

Mas a política brasileira resolveu apropriar-se dele. E funcionou.

Quando a Polícia Federal aponta que Valdemar da Costa Neto, cacique do PL, desviou R$ 119 milhões em emendas, a notícia choca, mas se acomoda. Um sábio do Centro Cívico, na coluna do Zé Beto de outro dia, com o cinismo de quem conhece o vaivém de Curitiba e de Brasília, cravou: “Orna com o entorno”. Orna com o histórico, com o fundo bilionário, com o presidiário, com o filho e com a patroa. Ninguém precisa dar nome aos bois.

A Folha de S.Paulo mostra a grife do Partido Novo. Entra Deltan Dallagnol, o paladino que desenhava PowerPoint para explicar o mecanismo do poder. Cassado pela Ficha Limpa e de olho no Senado pelo Paraná, o ex-procurador recebeu, por meio de sua empresa familiar, R$ 385 mil do fundo partidário. Rapaz! Não é que ele virou embaixador pra espalhar a ‘renovação política’, faturando R$ 42,5 mil por mês?

Os R$ 119 milhões de lá e os milhares de cá. O atacado escancarado e o varejo institucionalizado. Enfim, tudo orna.

O problema é o que sobra para a plateia.

Enquanto eles desfilam cifras e discursos finos, o cidadão comum veste o figurino de sempre: bolso vazio e a conta do desfile para pagar. Para compensar o nosso guarda-roupa escasso, eles nos oferecem mentiras sob medida, costuradas para a gente aplaudir. Cada dia com uma grife diferente.

Eles acham que mudam o guarda-roupa trocando o nome das coisas — de “emenda” para “embaixador”. Bobagem. A gente conhece o pano. Daqui de baixo, a gente só olha a cena e comenta baixinho:

— Combinou direitinho. Ornou!

 

Agora vou mudar minha conduta / Vou pra luta que eu quero me arrumar /Eu fui premiado pra herança / Com a nova dança que a moda lançou…

(Noel Rosa – ‘Com que roupa?’)

 


Lea Oksenberg é jornalista.