Num passeio pelo interior de Santa Catarina, uma placa de beira de estrada me chamou a atenção: “O maior luxo é uma história para contar”. Em seguida, o nome de Amir Klink, protagonista da campanha publicitária. Aquela frase ficou em meus pensamentos.

Todos têm histórias para contar, não precisamos de uma expedição marítima para isso. O difícil é contar trinta anos de amizade ao entorno de uma mesa. Tarefa inexequível à razão da memória. Porém, recordar bons momentos e conversas do amigo ausente há seis meses por motivo de saúde mantém acesa a expectativa de que ele irá comparecer na próxima reunião, e de que o grupo dos oito estará novamente completo.

O sentimento de ausência se espalha também entre seus leitores, já que a coluna, que vinha sendo publicada no Blog do Zé Beto todas as quintas-feiras, está suspensa desde o dia 27 de novembro de 2025. Mas não há de ser nada. Amigos e leitores aguardam o retorno do Célio Heitor Guimarães. Pois foi naquele 27 de novembro que o Célio nos brindou com uma crônica deliciosa, intitulada “No refúgio do banheiro”. O texto lembra um personagem do comediante Ronald Golias, Bartolomeu, que pensava ser o Brasil ainda governado pelo Marechal Deodoro da Fonseca e era fixado em banheiros. Vale a releitura.

Por influência do Célio, conheci as belezas naturais do Parque Nacional do Itatiaia, Poços de Caldas, Penedo e Paraty. Em Paraty, com suas ruas de pedras irregulares e casarões coloniais, eu e minha esposa nos hospedamos no antigo Hotel Coxixo. Na manhã seguinte, a coincidência: na recepção, ouvimos a voz do Célio, que chegava com sua saudosa Cleonice.

Antes de conhecer o Célio, conheci sua voz de radialista nos corredores da administração pública onde trabalhei. Certo dia ouvi sua voz e fui espiar de quem se tratava. No corredor, estava o Célio conversando, como quem discursa com naturalidade, sem nenhum tipo de esforço. Anos depois, nos tornamos amigos. Além do grande profissional que marcou o exercício de suas funções na vida pública, quando se aposentou em 1988, retomou sua paixão pelo jornalismo como colunista do jornal O Estado do Paraná. Eu, leitor de jornais e de seus colunistas, tive a sorte de vários momentos de troca de ideias com o Célio.

No dia 24 de maio de 2024, ele me enviou uma mensagem: “Oi, amigo Vilmar, a propósito do nosso Ruy Castro, outro dia andei elogiando-o aqui neste espaço do Zé Beto, dizendo que o Rio de Janeiro deve muito a ele pelos seus escritos”. “E ele me respondeu: ‘Oi Célio!!! Obrigadíssimo pelas palavras! O Rio não me deve nada, eu é que devo tudo a ele. Na verdade, sou carioca nascido longe de casa – meus pais, moradores da Lapa, foram trabalhar em Minas Gerais e me levaram junto, já dentro da minha mãe. Alguns anos depois, o equívoco foi corrigido… Abrs! Ruy’”.

Foram muitos os ensinamentos. Como o que aparece no texto “As Laranjas”, que identifica quem é nobre ou plebeu, dependendo do jeito de comer: famílias nobres chupam seus gomos, enquanto chupar laranja de tampa é coisa de plebeu. Uma crônica engraçada de Rubem Alves, comentada pelo Célio, despertou meu interesse pelo autor. Nunca chupei laranja de tampa, prefiro em gomo, mas também não dissipei minha condição social de plebeu.

Naquela mesa – a nossa –, a cadeira vazia espera pela volta dos detalhes e do perfeccionismo do Célio. Enquanto isso, o grupo dos oito segue na tentativa de decifrar os enigmas da atualidade sobre política, economia, ufologia, judiciário e até futebol.

 

Vilmar Farias é servidor aposentado do Poder Judiciário do Paraná.

Imagem