Tarzan acordou estranho naquele dia. Não porque tivesse sonhado que era contador (pesadelo recorrente), mas porque o silêncio ao redor era absoluto. Nada de pássaros, nada de vento, nada de folhas. A floresta tinha desaparecido como promessa de político depois da eleição.

Ele coçou a cabeça.

— Chita?

A macaca apareceu com um olhar de quem já tinha perdido a casa, o quintal e os pés de bananeira.

— Não tem mais árvore, Tarzan.

Jane, por sua vez, estava sentada numa pedra (possivelmente, o último imóvel disponível) com uma expressão de desaprovação.

— Eu disse que isso ia acontecer — comentou ela, sem explicar quando disse nem para quem.

Tarzan decidiu agir. Quando não há mais floresta, o mínimo que se espera é uma reunião. Saiu em busca de outros moradores daquele vasto condomínio ecológico. Primeiro encontrou Mufasa, majestoso, embora um pouco empoeirado.

— O ciclo da vida foi interrompido — disse o leão, olhando para o horizonte arruinado.

— Vamos precisar de uma assembleia — respondeu Tarzan, com inesperada vocação para síndico.

Depois acharam Mogli, que parecia mais confuso que manual de instrução do Imposto de Renda.

— Cadê a selva? — perguntou ele.

— Virou conceito — respondeu Jane.

Baloo apareceu logo depois e foi filosófico:

— O necessário ficou bem mais necessário — suspirou o urso.

E então, num esforço logístico que desafiaria qualquer agência de turismo, trouxeram Nemo. Sim, o peixe. Porque, se até ele estava sendo afetado, era sinal de que a coisa tinha ido longe demais.

— Eu não tenho nem mais onde nadar — disse o peixe, dentro de um baldinho que alguém arrumou.

Formaram um círculo e iniciaram a reunião.

— Pauta única — anunciou Tarzan.

— Quem acabou com a floresta?

Seguiu-se um debate acalorado. Mufasa culpou os humanos. Mogli ficou dividido. Tinha passado metade da vida tentando ser um. Baloo sugeriu que talvez fosse apenas uma fase. Nemo propôs uma corrente de água, mas ninguém entendeu muito bem. Jane, sempre prática, pediu uma investigação.

— Isso tem cara de coisa industrial — disse ela.

Após marchas, contramarchas, acusações cruzadas e uma pausa para hidratação, chegaram a uma pista: um velho cartaz rasgado com a imagem de um homem de tanga, perfeitamente penteado.

— Esse sou eu — disse Tarzan, orgulhoso por um segundo, até perceber que não era exatamente ele.

— É o Johnny Weissmuller — revelou Jane.

— Hollywood.

O nome caiu como uma árvore (metáfora cruel, considerando o contexto).

— Então começou com ele? — perguntou Mogli.

— Quando decidiram transformar a floresta em cenário — completou Mufasa.

— E depois em produto — disse Jane.

Tarzan levantou-se.

— Então, vamos resolver isso como sempre fizemos: com um grito.

Ele respirou fundo e soltou seu famoso chamado da selva. O eco voltou rápido demais, sem árvores para segurar o som.

— Acho que precisamos de outra estratégia — disse Chita, secamente.

Jane suspirou.

— Talvez… plantar tudo de novo?

Todos se entreolharam. Era uma ideia radical.

Baloo deu de ombros.

— Ótimo. Nada como um apocalipse pra renovar o paisagismo.

E assim, entre rugidos, dúvidas e um peixe num balde, começou o primeiro projeto de reflorestamento liderado por personagens de direitos autorais duvidosos.
No final da ata, Tarzan anotou: “Problema identificado: Hollywood. Solução proposta: resiliência.”

E, pela primeira vez naquele dia, algo parecido com uma floresta começou. Ainda que só na cabeça deles.

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Carlos Castelo é compositor, frasista e sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo.