Maurício ajeitou os óculos escuros, deu um gole daqueles de cinema no seu drinque decorado com um guarda-chuvinha colorido de papel e soltou um longo suspiro. À sua frente, o mar azul-turquesa quebrava mansamente na areia branquinha. Ele olhou para o horizonte — onde o contorno natural da praia sumia sob o desenho dos chalés —, depois para o garçom que trazia uma porção de iscas de peixe, e disparou sua frase de efeito:
— Rapaz… imagina como era isso aqui no tempo dos índios.
Maurício diz isso em todo canto que vai. Nos Lençóis Maranhenses ou numa praia badalada no Nordeste, repete o mantra. É o seu selo pessoal de “sensibilidade ecológica” e profundidade histórica.
O que ele esquece, enquanto filosofa sob o guarda-sol, é que no “tempo dos índios” a vida exigia um pouco mais de espaço e esforço. Não havia sinal de wi-fi de alta velocidade na areia para postar a foto do local com a legenda #Gratidão. A brisa que sente agora vem encanada entre os blocos de concreto da recepção, e os mosquitos da região foram devidamente banidos por generosas doses de pesticida. Não havia ar-condicionado no chalé master, muito menos travesseiros à disposição. O “paraíso intocado” que ele idealiza é um hotel cinco estrelas erguido em cima de uma área de preservação.
Se um indígena do passado aparecesse ali, na beira daquela piscina de borda infinita, ficaria chocado. Não com os biquínis, mas ao descobrir o preço da diária do complexo construído onde seus ancestrais pescavam e onde a desova das tartarugas deu lugar a fileiras de espreguiçadeiras. Ao ver a guarita armada e a cerca viva que impedem os pescadores locais de pisarem na praia “privatizada”, o nativo entenderia tudo. Olharia para o Maurício e pensaria: “Melhor eu pegar a minha canoa e me mandar.”
Os índios viraram tema de nostalgia de botequim, grife para turista deslumbrado suspirar entre uma caipirinha e outra.
Para Maurício, a Semana do Meio Ambiente é só um cenário instagramável, contanto que a natureza venha com serviço de quarto e pulseirinha de plástico de consumo livre. Enquanto ele se emociona com um passado lúdico e distante, a realidade corre solta atrás do muro do hotel, onde a paisagem real — com suas dunas e matas modificadas — vai virando asfalto, condomínio fechado e uma linha invisível de desigualdade que nenhum filtro do celular consegue disfarçar.
Quem foi que disse
Que eles podem vir aqui
Nas estrelas fazer xixi
(Xixi nas estrelas – Paulo Leminski e Guilherme Arantes)
Lea Oksenberg é jornalista.
