A saga de Odorico Paraguaçu, prefeito de Sucupira, uma cidade fictícia concebida pela imaginação do dramaturgo Dias Gomes, em busca de um defunto para inaugurar o cemitério da cidade, é o tema central de “O Bem-Amado”. Lançada em 1973, a novela foi a primeira com transmissão colorida na história da televisão brasileira. Em janeiro, essa obra marcante completou cinquenta anos, e é tema de artigo assinado pelo consultor jurídico Mário Montanha Teixeira Filho. Confira a seguir.

 

Odorico Paraguaçu: prefeito de Sucupira encarnou a necropolítica, paranoica e amoral, retratada de forma brilhante pelo gênio de Dias Gomes (foto: divulgação/TV Globo)

 


Odorico Paraguaçu e a política de ontem e de hoje

Mário Montanha Teixeira Filho

 

Nos primeiros dias de 2023, o “O Bem-amado”, a mais espetacular novela da televisão brasileira, completou cinquenta anos. Seus 178 capítulos foram exibidos entre janeiro e outubro de 1973 em imagens coloridas, algo inédito na teledramaturgia daquela época. Rever os personagens criados por Dias Gomes é abraçar a imensidão da política tradicional, dos jogos de interesses, dos costumes, da fé, da religião e da loucura. Pois esse mergulho no passado recente se tornou uma experiência acessível a partir de 2021, quando todos os episódios do enredo fantástico – com vários cortes determinados pela censura do regime militar ou por defeitos técnicos das fitas de videoteipe – foram colocados à disposição dos assinantes da Globoplay.

Vale a pena a maratona saudosista, uma sucessão de passagens eletrizantes e repletas de bom humor. Nela, o ator Paulo Gracindo é Odorico Paraguaçu, um empresário oportunista, coronel regional virado prefeito da fictícia cidade de Sucupira, no litoral da Bahia. Pródigo em gestos, invencionices e citações extravagantes, Odorico se notabilizou pelos muitos neologismos salpicados em seus discursos rocambolescos, que ninguém entendia, e pelas intrigas que sustentavam planos mirabolantes, cacoetes de uma administração fracassada e insensível à miséria do povo.

O cemitério era para ser a grande obra do governo em início de mandato, promessa de campanha eleitoral. Terminada a construção – colossal para os padrões sucupiranos –, os mortos da cidade ganhariam endereço para o descanso eterno, e os serviços fúnebres de municípios vizinhos poderiam ser enfim dispensados. Tudo certo, a não ser por um detalhe: desde o anúncio do esquema macabro, os habitantes de Sucupira pararam de morrer. Fosse pelo clima litorâneo, pela água cristalina que jorrava das fontes das fazendas locais, por circunstâncias bizarras ou coincidências absurdas, o cadáver vislumbrado por Odorico teimava em não existir.

Iniciava-se, então, uma obstinada e progressiva busca pelo corpo que inauguraria o campo santo – transformado, com o passar dos dias, em galinheiro, abrigo de cachorros, cabras e outros animais –, cujos muros registravam mensagens zombeteiras e protestos políticos de opositores do prefeito. Contrariado em suas pretensões, Odorico alimentava cada vez com maior voracidade a sua peculiar necropolítica, amoral, paranoica e cruel. Ao mesmo tempo que enxergava potenciais defuntos em cada pessoa que encontrava, mesmo as do seu círculo de intimidade, declarava-se vítima de conspirações terríveis, golpes contra o mandato que havia conquistado numa eleição repleta de manobras desonestas.

O contraponto à morte desejada, à negação da ciência e ao desprezo pelas questões sociais seria dado, ainda que involuntariamente, pelo médico Juarez Leão, interpretado por Jardel Filho. Vindo de Salvador, em crise depressiva e com impulsos de autodestruição, Juarez encarnou a antítese de Odorico. Aproximou-se dos pescadores explorados pelo picareta Jairo Portela (Gracindo Júnior), sócio do prefeito num empreendimento escandaloso, firmou vínculos não-oficiais com a oposição, teve um romance com Telma Paraguaçu (Sandra Bréa), a filha rebelde do coronel, e tornou-se aliado do jornalista Neco Pedreira (Carlos Eduardo Dolabella), que amava Telma e era dono de “A Trombeta”, gazeta que publicou uma entrevista devastadora em que o médico descrevia Odorico como administrador paranoico e funesto. A subversão de Juarez estava na sua humanidade e no seu senso de justiça, valores incompatíveis com uma ordem ancorada na hipocrisia, nas desigualdades e na miséria.

Sucupira seria condenada ao caos. Odorico promoveu o retorno sorrateiro de Zeca Diabo (Lima Duarte), um antigo filho da cidade que, vagando por regiões desconhecidas, se tornara matador profissional, temido e odiado por onde passava. Quem chegou, porém, foi José Tranquilino da Anunciação, nome de batismo de Zeca Diabo, já convertido em pacifista pela devoção ao Padre Cícero e pelo sonho de abraçar a profissão de protético. O arrependimento e a regeneração do velho pistoleiro o tornaram inútil ao “sistema”, que se livrou dele. Numa cena de forte simbologia, Zeca Diabo, instalado na casa do seu irmão, Mestre Ambrósio (Angelito Mello), terminava de copiar um exercício de alfabetização quando foi surpreendido por forças policiais que o renderam e o levaram à cadeia. Em seu caderno, a frase “eu sou um homem bom” havia sido escrita vinte vezes em letra caprichosa – uma tarefa aplicada pela professora Dorotéia Cajazeira (Ida Gomes), apaixonada por seu discípulo e irmã de Dulcinéia Cajazeira (Dorinha Duval) e Judicéia Cajazeira (Dirce Migliaccio), peças estratégicas de apoio partidário ao alcaide. A ação militar que recolheu o “homem bom” a uma cela (da qual escapou logo em seguida) foi comandada pela polícia local (Zilka Salaberry, como Donana Medrado, e Ferreira Leite, como o delegado titular Joca Medrado) – um núcleo político oposicionista –, com o monitoramento ansioso da Prefeitura, que apostava que o confronto produziria o “de cujus” inaugural. Os inimigos históricos formaram, ali, uma aliança de ocasião.

Nada, porém, aconteceu como previsto por Odorico, o que não o impediu de dar sequência às suas articulações delirantes. Sob o lema da “pacificação”, ele repatriou famílias rivais que haviam abandonado a cidade, semeou futricas que resultaram na violação do confessionário da igreja matriz, numa reprodução sertaneja do caso Watergate, e instaurou na comunidade um clima de guerra, insegurança e militarismo. Até que o descontrole tomasse conta de tudo, e Mestre Zelão (Milton Gonçalves), um pescador de fé inabalável, saltasse da torre da igreja para voar com asas rudimentares, no cumprimento de uma promessa feita a Iemanjá que o vigário (Rogério Fróes, como padre Honório) não conseguiu evitar.

O “Bem-Amado” é uma obra-prima feita por artistas que entregaram o que tinham de melhor para a sua execução. Talentos protagonistas de tipos inesquecíveis, como Dirceu Borboleta (Emiliano Queiroz), o distraído secretário de Odorico; Anita Medrado (Dilma Lóes), neta de Donana e Joca Medrado; Lulu Gouveia (Lutero Luiz), o dentista líder da oposição; Chiquinha do Parto (Ruth de Souza), esposa de Mestre Zelão e assistente de Juarez Leão no posto de saúde; Mariana (Teresa Cristina Arnaud), filha de Mestre Ambrósio; Nadinho (Jorge Botelho), o hippie; Zora Paraguaçu (Ana Ariel), irmã de Odorico; Cecéu Paraguaçu (João Paulo Adour), filho de Odorico; Gisa (Maria Cláudia); Nezinho do Jegue (Wilson Aguiar); Don Pepito (Juan Daniel), dono do botequim; Cabo Ananias (Augusto Olímpio); o farmacêutico Libório (Arnaldo Weiss); Maestro Sabiá (Apolo Correia); Odete (Isolda Cresta), a mulher infiel de Libório; Dona Florzinha (Suzi Arruda), mãe de Dirceu Borboleta; Eustógio da Anunciação (João Carlos Barroso), filho de Zeca Diabo; Tião Moleza (Antônio Carlos Ganzarolli); Ernesto Cajazeira (André Valli); coronel Hilário Cajazeira (Álvaro Aguiar); coronel Emiliano Medrado (Rafael de Carvalho); Maria da Penha (Guiomar Gonçalves); e Quelé (Eliezer Mota), chefe dos capangas de Odorico.

Há muito de contemporâneo (ou atemporal) nas estripulias de Odorico e seus correlegionários acríticos, e seus adversários atrapalhados. Temas familiares aos dias de agora ocupam a novela, como a manipulação das crenças religiosas, o desprezo pela ciência, o roubo de vacinas para aplacar uma epidemia de tifo, as tentativas de privatização da saúde pública ou um genocídio que esteve prestes a acontecer. É curioso notar como as manobras escancaradamente interesseiras e antipopulares do prefeito de Sucupira se assimilavam como procedimentos da institucionalidade, e não como aberrações cometidas por uma mente perturbada. Apenas o médico Juarez, em sua solidão racional, parecia enxergar o perigo que cercava aquela população, contaminada pelo sentimento de uma normalidade que não existia mais.

Qualquer semelhança com a realidade, advertiriam os letreiros de encerramento dos episódios da trama, terá sido coincidência. Uma coincidência que pertence aos letreiros, e apenas a eles. “O Bem-Amado” foi, na verdade, a descrição de um universo repleto de manipulações e trapaças. Sucupira, o microcosmo da política concebido pelo gênio de Dias Gomes, o retrato das mazelas da sociedade contemporânea, se construiu sob a forma de sátira e alegoria. Talvez por isso as suas histórias tenham escapado da censura – não sem ferimentos importantes –, que não foi capaz de identificar na sua aparência cômica as denúncias políticas que elas continham. A ditadura militar, que estava no auge da truculência e da insanidade em 1973, revelava a sua limitação intelectual, a sua estreiteza.

Ventos democráticos, ainda incertos, chegaram depois. Ficou a arte, impactante e atual apesar de transcorridos cinquenta longos anos. Pelos serviços prestados a Sucupira e ao mundo, pela dura realidade posta na cara dos seus concidadãos, diga-se do coronel-prefeito, com Nezinho do Jegue e o seu grito paradoxal e oscilante, o que é preciso ser dito: “viva, Odorico!”, nos momentos solenes; ou “morra, Odorico!”, sob o estado de embriaguez sincera dos malucos.

 

Mário Montanha Teixeira Filho é consultor jurídico aposentado.