Meu pai era uma figura que desafiava a lógica e a política. Em plena época de ditadura, ele carregava um fardo curioso: era a cara do general Figueiredo. No aeroporto, o burburinho era certo. Os funcionários da aviação paravam, olhavam de rabo de olho e logo vinha a pergunta clássica:

— E a Dona Dulce, não veio?

Era aí que o humor fino dele entrava em campo. Em vez de desfazer o equívoco, ele levava o dedo aos lábios e fazia um sinal de “shhh”, pedindo silêncio absoluto. Com aquele gesto, deixava os funcionários crentes de que o presidente da República estava ali, em solo curitibano, dando uma escapadinha com uma amante — que, no caso, era a minha própria mãe, assistindo a tudo de camarote. Ele não perdia a chance de subverter a autoridade com uma boa malandragem carioca.

Enquanto o país vivia tempos de pouca democracia, lá em casa a liberdade era total, ainda que um tanto confusa. Meu irmão era Fluminense por influência do faxineiro. Eu, Flamengo de alma roxa. E meu pai? Ele era Bangu. Dizia ser por convicção, mas suspeito que era para não ter que concordar com ninguém. Sofreu um bocado quando o Bangu enfrentou o Coritiba pelo Brasileiro; era um sufoco de dar dó, mas ele não arredava o pé da sua “terceira via” futebolística.

As tiradas dele eram rápidas como um drible. Quando contei, toda orgulhosa, que tinha passado para Psicologia na Federal do Rio, achei que viria um elogio ao meu esforço. Ele me olhou de cima a baixo e soltou:

— Mas, minha filha, você vai fazer faculdade de espiritismo?

Até no Natal, sendo judeu, ele dava um jeito de manter a mística. Todo ano tinha presente. Uma noite, resolvi montar guarda para pegar o Papai Noel no flagra. Vi, na penumbra, aquele “General” vindo de mansinho, na ponta dos pés, carregando o pacote com o cuidado de quem transporta um segredo de Estado.

O ápice da nossa engenharia doméstica foi o dia da televisão. Sugeri trocar o aparelho de lugar para mudar o visual da sala, mas a logística era pesada. Ele, para não gastar o braço nem o tempo, resolveu a física com sua lógica peculiar:

— Filha, a gente bota um espelho na frente e assiste pelo reflexo!

No fim das contas, a vida com ele era assim: um pouco de reflexo, muita risada e a certeza de que a melhor forma de encarar generais e ditaduras era com um sorriso no canto da boca. Seja lá onde ele estiver agora, deve estar fazendo sinal de silêncio para os anjos e sugerindo a São Pedro que use um espelho para vigiar o mundo sem precisar sair do lugar.

Minha alma canta
Vejo o Rio de Janeiro
Estou morrendo de saudades
Samba do avião

 

Lea Oksenberg é jornalista.

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