As pessoas se perguntam para onde foi o humor no Brasil. Ficou violento, agressivo, ofensivo. Mas Ivan Lessa (1935-2012) já fazia tudo isso e era politicamente incorreto antes mesmo de inventarem a expressão. Algumas amostras:

Nelson Ned e Toulouse-Lautrec quando saíam juntos pagavam inteira. • A terra de ninguém é sempre disputada por duas ou mais facções. • A melhor luz no fim do túnel é aquela que os ginecologistas enxergam. • Onan foi a primeira pessoa a empregar a expressão “mão de obra”. • Reserva indígena é um armário cheio de munição que os fazendeiros de Mato Grosso guardam para ocasiões especiais. • A morte é um estado de espírito. • Herodes inventou a mortalidade infantil. • Se você colar o ouvido no peito de um católico praticante ouvirá uma voz dizendo “Saravá, zifio!”. • Cada vez que um retirante bota o pé na estrada, o turismo interno dá um salto à frente. • Se você colar o ouvido no peito de uma feminista, será denunciado no Tribunal de Crimes Contra a Mulher. •  Para os sertanejos, Euclides da Cunha era, antes de tudo, um chato. • Os paulistas, num bom dia, são compostos de monóxido de carbono, dióxido de enxofre, poeira em suspensão, um chops e dois pastel. • Na Argentina, Deus também é brasileiro. • O Brasil é o único país do mundo em que os criminosos não voltam ao local do crime. Na verdade, nunca o deixaram. • Se todos os hansenianos se dessem as mãos, alguns ficariam sem mãos. • Nas regiões atingidas pela seca, a mão de obra flutuante é encarada com inveja. • Mesmo tendo morrido há mais de 200 anos, Tiradentes ainda não passou ao domínio público. • Nas altas esferas, o enriquecimento ilícito é conhecido como contradições neocapitalistas de uma potência emergente. • Nunca esqueça de beijar a mão da viúva do pedestre que você atropelar. • Guarde os detalhes da sua colonoscopia para depois da sobremesa.

Como se vê em Ivan, é possível a um humorista ser violento, agressivo e até ofensivo. Só precisa ser inteligente. E, antes de tudo, engraçado.