O falecimento de Luis Fernando Verissimo, no sábado 30 de agosto, deixou o Brasil muito mais triste e literalmente sem graça. Embora já fora de atividade desde 2021, quando sofreu um AVC, que lhe causou sequelas motoras e de comunicação, Verissimo era o que de melhor tínhamos na crônica e no humor escrito.
Frasista militante, era capaz de genialidades como: “Às vezes, a única coisa verdadeira num jornal é a data”. Ou: “Muitas mulheres consideram os homens perfeitamente dispensáveis no mundo, a não ser naquelas profissões reconhecidamente masculinas, como as de costureiro, cozinheiro, cabeleireiro, decorador de interiores e estivador”. Ou ainda: “No Brasil o fundo do poço é apenas uma etapa”. E: “No começo Deus criou o mundo e descansou. Então, Ele criou o homem e descansou. Depois, criou a mulher. Desde então, nem Deus, nem o homem, nem o mundo, tiveram mais descanso”. Mais uma: “Se o mundo está correndo para o abismo, chegue para o lado e deixe ele passar”.
Com a próxima, tenho grande afinidade: “Depois de uma certa idade, é temerário fazer aniversário. Que agonia! Todo ‘parabéns’ soa mesmo dito numa boa, como ironia”.
Nem por isso, LFV considerava-se um frasista. Dizia: “Às vezes, tudo que precisamos é de uma frase certa, no momento certo”. E estava cometida mais uma frase de efeito.
Era natural de Porto Alegre. Mas não se sentia gaúcho. Justificava: “Nunca usei bombacha, não gosto de chimarrão e nem de me lembrar da última vez que subi num cavalo. Aliás, o cavalo também não gosta”.
Filho de Erico Verissimo, um dos maiores escritores brasileiros, Luis Fernando começou a escrever tarde, depois dos 30 anos, talvez por sentir-se ofuscado pela dimensão do pai. Depois, não parou mais. Tem mais de 80 livros publicados, alguns com personagens memoráveis, como “Ed Mort”, um detetive particular carioca, de língua afiada e coração mole, sem nenhum tostão no bolso; “O Analista de Bagé”, de formação freudiana ortodoxa, mas tratamento típico da fronteira do Rio Grande do Sul, como o “joelhaço”; e “A Velhinha de Taubaté”, a única pessoa que ainda acreditava no governo militar. A antologia de contos de humor “Comédias da Vida Privada” tornou-se um especial da TV Globo e depois uma série de 21 programas. Nos quadrinhos, criou as séries “As Cobras” e “Família Brasil”.
A relação de Luis Fernando com o pai foi marcada pelo afeto, por um lado, e pela incomunicabilidade, por outro. Econômico nas palavras, como o pai, é famoso o diálogo entre os dois em uma viagem de trem de Porto Alegre a Caxias do Sul. Ao embarcarem, para puxar conversa, Erico disse ao filho: “Parece que vai chover”. 125 quilômetros depois, ao chegarem em Caxias, Luis Fernando respondeu: “É”.
Além de escritor e cartunista, LFV foi publicitário, tradutor, roteirista, músico e saxofonista apaixonado por jazz.
Na vida real era casado, desde 1963, com a carioca Lúcia Helena Massa, sua companheira de vida inteira e mãe de seus três filhos (Fernanda, 1964; Mariana, 1967; e Pedro, 1970). Era avô do Lucinda e Davi, filhos de Fernanda.
Sobre a morte, Verissimo tinha opinião formada: “A morte é uma sacanagem. Sou cada vez mais contra”. Não obstante, a dele foi tranquila. Segundo o filho Pedro, ele simplesmente “fechou os olhos e se foi”.
Célio Heitor Guimarães é escritor, jornalista e consultor jurídico aposentado.
