Tanatiana Motyl, moradora de Paranaguá, no Litoral do Paraná, nunca quis ser mãe. Na verdade, achava que não gostava de crianças, que não levava jeito para cuidar delas. Estava errada sobre ela mesma. No período da pandemia, a bióloga, por meio do marido, conheceu o serviço de Família Acolhedora e viu sua vida ser transformada.
O acolhimento familiar é uma medida de proteção, prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), para crianças e adolescentes que precisam ser afastados temporariamente de sua família de origem. Em vez de irem para um abrigo institucional, elas ficam, de forma provisória, sob os cuidados de uma família. O serviço é executado pelas prefeituras em articulação com o Poder Judiciário.
Em pouco mais de cinco anos, Tanatiana e o esposo, Leopoldo Bonfim, já cuidaram de sete crianças e estão atualmente com a oitava, uma bebê de 11 meses. “Antes de me casar, eu era freira, então sempre tive essa necessidade de ajudar o próximo. Não sabia se ia gostar de acolher, mas na primeira criança eu me apaixonei e não quis parar mais. Ver o desenvolvimento delas é um presente”, conta Tanatiana. “A gente cuida como se fosse nosso. Damos todo amor, carinho e cuidado”, completa Leopoldo.
Liderança – De acordo com o Sistema Nacional de Adoção e Acolhimento do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), o Paraná é o estado com mais crianças em acolhimento familiar no país: 617. O Estado também lidera o ranking nacional de famílias acolhedoras cadastradas: 1.202. Os dados são de 23 de agosto de 2026. O prazo máximo com uma família acolhedora não costuma superar 18 meses. É uma medida excepcional estabelecida enquanto se decide se a criança vai retornar para a família de origem ou se será encaminhada para adoção. Mesmo sendo temporário e envolvendo uma difícil despedida após o fim do período determinado, o acolhimento familiar é considerado bem mais benéfico para as crianças e os adolescentes que estão em uma situação de vulnerabilidade. “Preferimos, como política judiciária, o acolhimento familiar. A criança, num seio familiar, cercada de cuidado e afeto, se desenvolve de uma forma mais saudável. Não significa que uma instituição não vá oferecer os direitos básicos para ela, mas o cuidado dentro de um ambiente familiar é muito mais efetivo”, afirma a juíza da Vara da Infância e Juventude de Paranaguá, Daniana Schneider.
Diferença – A comerciante Viviane Cardoso sabe como é estar em um abrigo institucional. Viveu isso na pele na infância. Em 2025, depois de assistir a uma palestra sobre famílias acolhedoras, ficou interessada no tema. O marido e os dois filhos, um de 7 e outro de 19 anos, toparam a ideia e a casa deles virou um lar acolhedor. “Quando uma criança está num lar coletivo, tudo o que ela quer é estar em uma família. Eu fiquei pensando sobre isso e vim ver como funciona. Depois de um tempo, me mandaram a foto de uma criança e não tinha como dizer não”, relata. “Apesar de saber que elas vão embora, é muito gratificante você saber que ajudou uma pessoa, que ela pode ter um futuro diferente porque você esteve ali”, diz Viviane.
Em Paranaguá, o serviço conta atualmente com 25 famílias acolhedoras cadastradas. A psicóloga Lori Nunes Pereira acompanha de perto as vivências e destaca os benefícios da medida. “A melhor linguagem que existe é o amor. Naquele período de acolhimento, a criança se sente segura e está recebendo o que ela mais precisa no momento: um lar”, ressalta a profissional. Há benefícios para as crianças e adolescentes, mas também para quem acolhe. “Elas fazem tão bem para a gente quanto a gente para eles e, se pudermos fazer a diferença para uma criança, já valeu a pena”, diz Tanatiana. “É uma experiência gratificante, que traz um crescimento. Nós mudamos nossa fisionomia, nossas atitudes, nossa aura quando estamos acolhendo. Transbordamos amor”, compartilha Leopoldo.
Serviço
- O Serviço Família Acolhedora de Paranaguá pode ser contatado por meio do telefone (41) 92005-0609 ou pelo e-mail facolhedorapgua@gmail.com.
