O menino, com pedra na mão,
mira a porta de vidro
de uma agência bancária.
O vidro arrebenta,
pedrada bem dada,
e o menino segue em passeata.
Não há sangue na cena,
mas há sangue sutil,
suor cotidiano
sugado da gente
(os roubos perfeitos
do banco afamado).
Dá-se, então,
o surto de indignação.
Por causa do banco,
por causa da usura,
por causa da morte lenta
que sufoca?
Não, a indignação
é por causa do menino
que protesta
e perturba a paz.
Outro menino,
sem pedras na mão,
toma um pedaço de pano
a enfeitar palácio oficial
e lhe põe fogo.
Regra do jogo:
bandeira não pode,
é pátria sagrada.
Mas o menino não quer saber,
e queima o pano
para formar um poema
direto, concreto, violento,
como a vida que leva,
de balas perdidas
e sonhos desfeitos.
Cresce, então,
o surto de indignação.
Por causa dos mortos,
corpos empilhados
(centenas, milhares, milhão)
sob o olhar indiferente
dos donos de tudo?
Não, a indignação
é por causa do menino
que protesta
e perturba a paz.
Haja paz.
Mário Montanha Teixeira Filho é consultor jurídico aposentado.
