A figueira era o ponto mais alto do quintal. Seus galhos se estendiam sobre o telhado, atravessando o silêncio das manhãs com sombras longas e densas. A madeira antiga, cheia de marcas e reentrâncias, servia de escada para quem soubesse usá-la bem. E ela sabia.
A gata subia a figueira desde pequena. Cada galho era conhecido, cada inclinação mapeada por seus músculos.
No topo, havia um ponto exato de onde podia ver o quintal vizinho, onde ele costumava aparecer. Um gato de pelagem escura, quase azulada sob o sol, que caminhava como quem não precisa provar nada. Era a curvatura silenciosa do dorso, o salto contido, o modo como seus bigodes finos vibravam antes de um pulo — coisas assim que faziam dela uma observadora insistente.
Ela tentava chamar sua atenção de maneiras sutis. Caçava com mais vigor quando sabia que ele poderia vê-la. Espalhava os corpos dos ratos em pontos estratégicos do muro. Espreguiçava-se longamente no parapeito, deixando a cauda pender como uma vírgula de arrogância. Mas ele raramente olhava. E quando o fazia, era com aquele desinteresse preguiçoso que os gatos reservam ao mundo.
A figueira parecia crescer a cada dia. O topo se afastava aos poucos, como um lugar que já não a reconhecia. Tentava escalar como sempre, mas as garras falhavam em alcançar os pontos certos. O vento no alto ficava mais forte. Um dia, escorregou e ficou pendurada por um instante longo demais — e, desde então, hesitava. Começou a dormir no telhado, mais baixo, menos nobre, mas aquecido pelo sol da tarde.
Dali via a figueira com outros olhos: não mais como palco de exibição, mas como um lugar que já foi seu.
Mesmo assim, seguia tentando. Roubava galinhas, espalhava penas pelo quintal. Enterrava peixes só para desenterrá-los na frente dele. Treinava saltos no varal, ficava imóvel por horas em pose de caça. Cada gesto era afiado pela repetição, como se o desejo se moldasse em hábito, e o hábito, em linguagem. Mas ele não respondia. Sumia por dias, aparecia em outros quintais, ignorava.
Certa tarde, ela não tentou subir. Deitou-se sobre as telhas quentes e ficou ali, os olhos semicerrados, o corpo relaxado de um jeito quase vencido. O céu escurecia, e uma brisa carregava o cheiro de figos caídos. O mundo parecia ter se acomodado em um ritmo sem esforço.
Então, ouviu o som: o caminhar leve, quase imperceptível, sobre a calha.
Abriu os olhos e o viu.
Ele se aproximava devagar, como se fosse parte do telhado. Parou a poucos passos. Havia algo na postura dele — a lentidão proposital, o peso suave das patas — que a impediu de se mover. Então ele piscou. Uma piscada lenta, cheia, felina. E largou um rato diante dela.
Ela o encarou por um segundo seco. Depois, sem hesitação, golpeou-lhe o focinho com uma patada limpa. Pegou o rato nos dentes e, em silêncio, voltou à figueira. As garras encontraram apoio, o corpo moldou-se ao tronco, e num salto contínuo, estava no alto. Enrolou-se num galho largo, as orelhas atentas ao vento, e devorou a presa. O luar escorria pelas folhas.
A Gata ronronou, cerrou os olhos, e tirou uma soneca em sua figueira.
