Donald Trump, Vladimir Putin, Volodymir Zelensly, Benjamin Natanyahu, o Hamas – está todo mundo brincando, irresponsavelmente, com o planeta em que vivemos. E sou então remetido ao saudoso Rubem Alves. Em um volume intitulado “Pensamentos que penso quando não estou pensando”, na crônica que fecha o volume – “Bolha Terra Chamando…” –, o mestre confessa que mais do que a própria morte e a morte das pessoas que ele ama, o que mais lhe dói é a possibilidade da morte prematura da nossa Terra. Sim, Terra, este belo planeta tão judiado por todos nós. E o mais trágico – destaca ele – será se ela morrer antes da hora, assassinada por seus próprios filhos.

Rubem confessa o assombro dele com o nascimento de coisas tão lindas e mansas de uma enorme explosão ocorrida há 15 bilhões de anos, o Big Bang descoberto pelos cientistas: “Do caos nasceram ordem, vida e beleza,” – registra – “da mesma forma como uma bolha de sabão sai, perfeita, do canudinho que o menino sopra”.

E foi exatamente aí que ele se assustou, temendo que a bolha, tão bonita e perfeita, estoure antes da hora. Sabe o leitor por quê? Por essa desgraça que damos, animadamente, o nome de “progresso”.

— Todos os candidatos a presidente, todos, indistintamente, de direita e de esquerda, prometem “progresso” – sublinha o nosso Rubem, acrescentando: “Mas nenhum deles promete preservar a natureza. Qualquer menino sabe que a bolha de sabão é frágil. Não pode crescer sempre. Se crescer além do limite, ela estoura. E a nossa Terra é precisamente uma bolha frágil que navega pelos espaços vazios, bolha onde apareceram, miraculosamente, as condições para que a vida viesse a existir. Mas, se essas condições desaparecerem, a vida deixará de existir”.

Como de costume, continuo concordando com Rubem. E a razão dessa concordância é explicada por ele mesmo, quando, em outro pensamento, responde por que se gosta de um autor: “Gosta-se de um autor quando, ao lê-lo, tem-se a experiência de comunhão”. Por isso, o leitor tanto amou e continua amando, como eu, Rubem Alves. Parafraseando as suas próprias palavras, tão carregadas de verdade e sabedoria, ao lê-lo, nós nos lemos. Melhor: nos entendemos. “Somos do mesmo sangue, companheiros no mesmo mundo” – enfatizava ele.

Rubem sempre se disse preocupado com o planeta Terra, com os males que ele tem sofrido. E foi direto ao xis da questão:

“Muitas críticas justas já se fizeram ao capitalismo, de um ponto de vista ético, em sua tendência de produzir pobreza e concentrar riqueza. Mas raramente se fala sobre o capitalismo como um sistema autodestrutivo que, para existir e gozar de boa saúde, tem de estar num processo de crescimento constante: mais empregos, mais trabalho, mais devastação da natureza, mais monóxido de carbono no ar, mais lixo – seis bilhões de quilos de lixo por dia! –, mais exploração dos recursos naturais, mais florestas cortadas, mais poluição dos mananciais… Até quando a frágil bolha suportará?”

Difícil responder quando temos entre nós, lançando bombas uns nos outros e matando impiedosamente ou ameaçando pessoas inocentes, gente como Vladimir Putin, Volodymir Zelensly, Benjamin Natanyahu, Donald Trump, luminares do Hamas e assemelhados, em busca de territórios, sangue e poder.

Resta-me apenas – o que fazer? – pedir a proteção divina ou sugerir ao amigo leitor que, se ainda não conhece, procure conhecer a referida e valiosa obra de Rubem Alves. Com ela, certamente, ficará um pouco mais iluminado e, em vez de preocupar-se com o mercado, com os canalhas que nos governam, com o progresso e bobagens que tais, passe a dar mais importância aos campos verdes, ao céu azul, aos beija-flores, aos rios que escorrem entre as pedras, ao vento que balança as arvores, às flores dos jardins – coisas que tanto encantavam Rubem Alves e devem encantar a todos nós, habitantes desta maravilhosa e frágil “bolha de sabão”.

 

Célio Heitor Guimarães é escritor, jornalista e consultor jurídico aposentado.