Dia desses, revendo no You Tube o saudoso Ronald Golias, que tanta falta está fazendo na triste televisão nacional, lembrei-me de um ilustre membro da família Guimarães: o Bartolomeu, um velhinho adorável de cavanhaque e longos cabelos brancos, criado com perfeição por Golias.
Bartolomeu pensava ser o Brasil ainda governado pelo marechal Deodoro da Fonseca e era fixado em banheiros. “É o local onde o homem se encontra consigo mesmo” – refletia ele, nos textos escritos por Carlos Alberto da Nóbrega.
Rubem Alves, ainda o meu filósofo favorito, tinha opinião semelhante. Para ele, o banheiro era “um refúgio, um santuário da solidão”, “um lugar de liberdade e honestidade”.
O Rubem, porém, implicava com a mania do brasileiro de chamar privada de banheiro. Aqui, se alguém, em situação de necessidade, indagar “onde fica a privada”, receberá como resposta uma correção inicial de boas maneiras: “Ah, o senhor quer saber onde fica o banheiro… Fica no final do corredor”. E o necessitado poderá até ficar intrigado, imaginando-se malcheiroso: “Banheiro?! Mas eu já tomei o meu banho hoje…”
Aí, chegava ao “banheiro” e constatava que o indicante é que estava equivocado. Ali não havia nem banheira nem chuveiro. Só uma privada (e uma pia para lavar as mãos) – exatamente o que ele estava procurando.
Rubem advertia que, entre nós, não é educado chamar privada de “privada”. Só de “banheiro”. Ou de “toilette”, que, segundo os dicionários, é o “ato de lavar, pentear e vestir”. No meu tempo de criança, privada era “casinha” e ficava no fundo do quintal. Mas isso já é outra história.
Por isso, o Rubem propunha – como mais uma de suas inúmeras revolucionárias teses – que se recuperasse a dignidade da palavra “privada”. Sustentava que “as privadas podem se tornar lugares desemburrecedores, que excitam a inteligência”. Até porque as privadas, onde ninguém tem o direito de nos interromper, é um lugar excepcional para a leitura. Concordo plenamente. Por experiência própria, confesso. Uma privada é altamente inspiradora.
Também por isso, apoio com entusiasmo a ideia de que pais e mães, em nome da educação de seus filhos e da sua própria, transformem as privadas em bibliotecas. Uma minibiblioteca, é claro, mas “suficiente para operar grandes transformações nos que leem enquanto assentados no trono”. Com uma vantagem acessória: as privadas, em vez de serem chamadas eufemisticamente de banheiros, poderiam ser chamadas de “bibliotecas privadas”.
E não haveria a necessidade de grandes modificações. Nem de grandes investimentos. Bastaria a introdução de uma pequena estante, fixada ao alcance das mãos da pessoa ali assentada.
Como sugestões de leitura, Rubem indica um livro com as tirinhas de Calvin, “uma pitada de sabedoria infantil no mundo louco dos adultos”, ou do bravo gaulês Asterix. Na minha biblioteca privada, haveria também Peanuts, Mafalda, Hagar, o terrível, mas o destaque principal seria o próprio Rubem Alves, mestre na escrita e na arte de pensar, um homem que teve um caso de amor com a vida e que, aos 80 anos de idade, era apenas uma criança que se recusou a virar adulto.
Aí, os “banheiros” seriam efetivamente templos de duplo prazer: fisiológico e intelectual.
Célio Heitor Guimaraes é escritor, jornalista e consultor jurírico aposentado.
