No dia em que resolveram estourar mais uma guerra no Oriente Médio, dessas que começam com mapas na televisão e terminam com mães chorando longe demais, fui almoçar no restaurante lusitano do bairro.

Vou à casa do Paulinho desde a abertura, sobretudo aos sábados e domingos, quando o bacalhau chega à mesa como se viesse de caravela, ainda úmido de Atlântico. Houve, porém, um hiato: passei algum tempo trabalhando fora de São Paulo. Quando voltei, a primeira coisa que vi foi o mesmo sorriso e, sobre o balcão, as folhinhas de louro.

Na Europa, especialmente em Portugal, há essa tradição de trocar folhas de louro na passagem do ano. Guarda-se uma na carteira para trazer prosperidade. Paulinho faz isso há anos. Colhe as folhas na árvore da casa da mãe e traz no fim de semana. Distribui como quem compartilha paz: de graça, de coração, com votos de saúde.

Tenho várias na carteira. Já sequinhas, frágeis como relíquias vegetais. Quando abro para pagar a conta, elas aparecem entre cartões e recibos, como se dissessem: “lembre-se do essencial”.

Sou descendente de portugueses da cidade de Castelo Branco. Aos dezessete anos, fui lá com meus pais. Lembro-me de um restaurante simples, favas fumegantes e vinho regional servido sem cerimônia. Havia uma dignidade nas coisas pequenas: o pão, a conversa, a madeira da mesa. Talvez seja isso o que me comove nas folhinhas da Tasca da Guarda. Elas trazem consigo não apenas prosperidade (palavra que o mundo estragou), mas uma memória de sobriedade.

Estudei por conta própria um pouco de mitologia nórdica. Conta-se que o deus Odin transformou duas árvores em um homem e uma mulher. Sempre gostei dessa ideia de que viemos do tronco e da seiva. Sem árvore não há vida. E sem gestos que nos lembrem disso, a existência vira apenas notícia urgente.

Enquanto os comentaristas de TV falavam sobre os bombardeios, eu mastigava o peixe e observava Paulinho entregar mais uma folha a um casal jovem. Não era um amuleto contra mísseis. Era algo ainda mais subversivo: uma resistência pacífica contra o deus dinheiro, contra a ideia de que valemos apenas pelo que acumulamos.

O conflito escalava do outro lado do mundo. Aqui, uma árvore era gentilmente repartida em pedaços verdes.

Os grandes discursos prometem salvar a humanidade. Eu desconfio deles. Prefiro acreditar que o mundo se sustenta por causa dessas miudezas: uma folha colhida no quintal da mãe, atravessando a cidade dentro de uma carteira gasta.

Pensando bem, talvez a paz não venha em tratados. Venha em folhas.

 

Carlos Castelo é compositor, frasista e sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo.