A cidade estava mais silenciosa naquela noite. A chuva já havia passado, mas o chão ainda guardava sua presença. Não só de água, de memória também. O prédio antigo, com sua iluminação cênica, clareava a Praça Generoso Marques. Na torre do Paço da Liberdade, o relógio insistia em marcar um tempo que já não nos pertence. As luzes no chão molhado não eram apenas reflexo; eram duplicações, uma cidade sobre a outra, como se Curitiba se observasse, hesitante, tentando lembrar o que ainda é.

Então veio o ciclista. Cortou a cena sem pedir licença, como a vida faz. Não olhou para o reflexo, nem para a arquitetura que se encenava na luz. Apenas seguiu. Pedalando. Como quem sabe que o tempo não mora nos relógios, mas no movimento. Fiquei ali, com a câmera e o silêncio.

Há uma honestidade nas poças d’água: elas não inventam, apenas devolvem. Mas devolvem com atraso, com desvio, como a memória. O que está acima é presença. O que vibra abaixo é vestígio.
E talvez seja isso que me move a fotografar: essa tentativa, inútil e bonita, de reter o instante antes que ele desapareça.

O homem se foi. A água ficou. O prédio persistiu, fingindo eternidade. E eu, entre tudo isso, tentando entender se registro o mundo ou se é ele que, em silêncio, me revela.

 


Ricardo Marajó é fotógrafo.