Quem faz parte da “geração bossa nova” —nascidos até meados da década de 60— vivenciou diferentes críticas ao feminismo. Todas elas circulam hoje, mas algumas estão mais em alta do que outras. As redes sociais nos permitem ver todos desfilarem nos feeds como na série “O Túnel do Tempo”, para usar uma referência conhecida da época. A mais caricata e insistente é a da feminista tida como feia e solteirona ou supostamente lésbica. Um clássico que tem sido usado desde sempre para assombrar meninas preocupadas em agradar os homens.
Sem a preocupação de seduzir e de serem aceitas pelos homens, as lésbicas enxergam as relações de assujeitamento de gênero com mais clareza. Elas não estão pautadas pelo dilema da mulher heterossexual, que é o de amar seu potencial algoz. Daí seu enorme potencial emancipatório e causa de grande desconforto entre os homens, que tendem a atacá-las ou invisibilizá-las. Não é de hoje que a sociedade usa gênero para se dividir em grupos distintos. Ainda assim, cada época, território e comunidade o fez e faz de formas bem distintas. As relações que se estabelecem podem variar da simples diferença de atribuições até a total subserviência. A demanda para nós é de submetimento e, ao recusá-la, sofremos as sanções.
A figura do marido provedor e da esposa dona de casa é mais rara hoje. Mesmo as “tradwives” que advogam a seu favor passam grande parte do tempo na internet vendendo seu estilo de vida altamente monetarizado. Assim também são as mulheres na política que defendem pautas conservadoras, como as mães ficarem em casa cuidando dos filhos. A jornada de trabalho dessas defensoras dos bons costumes depõe contra o que pregam.
O homem provedor é raro. No geral, os maridos reclamam quando as esposas não trabalham dentro e fora de casa. Tampouco há um marido provedor que não cobre, em dependência e obediência, a fatura de seu trabalho. Quem paga as contas decide como gastar e pode parar de fazê-lo a qualquer momento. Essa conta nunca fechou, e a disputa pelas pensões é prova disso.
Por essas e outras que a pauta feminista é fundamental. Movimento pacífico, atacado das mais explícitas às mais insidiosas formas. Nós entramos com as demandas, seus detratores entram com estupro, feminicídio e desmoralização. Os dois primeiros conhecemos bem, enchem o noticiário várias vezes por dia. A desmoralização tem várias faces, como a difamação das vítimas, por exemplo. Outra é a forma como se denunciam os excessos do feminismo, que existem. Há excesso, por exemplo, nos falsos testemunhos de violência e na intolerância com qualquer homem, seja ele decente ou não. Devem ser combatidos, claro. Mas esses casos são explorados com o claro intuito de desqualificar o movimento como um todo. Ao contrário do machismo, são casos isolados de má-fé e com baixo impacto social.
Mesmo com abusadores convictos, como Trump, Plácido Domingo, Daniel Alves, as acusações e as sanções, quando existem, são seguidas de retornos retumbantes, por vezes capitalizando a própria condenação. Há injustiças em qualquer movimento, mas a desproporção de poder e de efeitos é tão chocante que não há como não nos questionarmos: a quem servem discursos que usam excessos pontuais para desqualificar o feminismo como um todo?
Na verdade, estamos “calvos” de saber.
Vera Iaconelli é psicanalista.
