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Talvez o amável leitor nunca tenha ouvido falar de Robert Happé. Já me referi a ele aqui neste espaço, há um par de anos. Mas não custa repetir. Em apertada síntese, eu poderia dizer-lhes que Robert Happé, que nos deixou em 8 de agosto de 2020, era um filósofo e escritor holandês que passou boa parte de vida tentando descobrir o significado da vida.
Quem somos nós? De onde viemos? O que estamos fazendo aqui? Por que a vida é assim? São perguntas que a humanidade faz desde sempre, sem encontrar respostas. Pois Robert Happé achava que as encontrou e andou pelo mundo divulgando-as.
Ele nasceu no final da II Guerra Mundial. Ainda bebê, perdeu os dois irmãos, o lar e a mãe, que desapareceu depois de um ataque de bombardeios alemães. O pai já havia sido preso pelos soldados de Hitler. Tido como órfão, foi criado por uma família. Um dia, um homem apareceu e lhe disse: “Eu sou o seu pai”. Juntos, encontraram a mãe de Robert em um hospital psiquiátrico. Tentaram recomeçar a vida em Amsterdan, mas a mulher adoeceu e morreu de câncer.
Aos 16 anos, o jovem Robert colocou uma mochila nas costas e partiu para descobrir o mundo e seus mistérios. Começou a estudar psicologia, mas era tempo de servir o Exército. Só que ele não queria aprender a matar pessoas. Foi preso por desobediência e passou a lavar latrinas e trabalhar na cozinha. Quando o Exército conseguiu se livrar do soldado fracassado, ele girou o mundo sem dinheiro, de carona. Chegou à Índia, ao Nepal, ao Tibete, a Taiwan e ao Camboja. Depois, internou-se na floresta, onde permaneceu por três anos, alimentando-se (física e mentalmente) da natureza. Ali garantiu ter tido acesso a Akasha [*], que seria a grande biblioteca do universo, onde estariam arquivados todos os conhecimentos.
Happé tinha certeza de que somos muito mais do que sabemos. Que a vida é uma jornada, na qual nós é que devemos descobrir quem somos. E que, com a chegada da chamada Era de Aquário, as pessoas começaram a ganham consciência e a sair das caixas, onde se encontravam como ratos, para enfrentar a desonestidade e a corrupção do sistema dominante no planeta: “O sistema passou do dogma religioso para o dogma econômico” – garantia.
Foi além e afirmou que nossos governantes e orientadores apenas fingem ser nossos amigos, mas não nos dão o que é bom para nós, não nos falam dos nossos valores e qualidade, sequer sabem que somos seres criadores. E que aqui viemos e aqui estamos para aprender e evoluir. Por isso, grande parte das crianças (sobretudo as atuais) não gostam das escolas, porque sentem que alguma coisa está errada nelas:
– No modelo atual – garantia –, somos tratados como números e ensinados a copiar e repetir. Fazemos provas o tempo todo, como robôs. E a manipulação tira a identidade das pessoas.
Outra ilusão, segundo Robert Happé, é a absurda importância que se dá ao dinheiro, misturando-o ao poder e à felicidade. “Logo, quando o sistema atual entrar em colapso [já está entrando, como se sabe], as pessoas que têm apenas dinheiro, ficarão sem nada” – destacava e justificava: “Porque o verdadeiro poder é o amor e o ser humano é uma só família”.
Aí, Robert foi ao pomo da questão: “Não estamos no mundo que merecemos. Foi nossa própria consciência que nos trouxe aqui. Mas este mundo está prestes a se dividir e os sinais estão aí: uma parte permanecerá na terceira dimensão; a outra, evoluirá para níveis superiores de luz e amor. E o Brasil é a grande esperança. Há no país muita conexão com os sentimentos, muita luz e muito cristal que atrai mais luz. E as crianças que estão chegando vêm para ensinar-nos. Prestem atenção nelas”.
Antes mesmo de conhecer Robert Happé e saber de suas conclusões, eu já estava de acordo com ele. Sempre achei que muitos de nós nascemos em um mundo errado. Pouco temos a ver com isso que aí está ou com isso que tudo ficou. Mas já que aconteceu, resta-nos lutar. Se não nos é dado (ainda) mudar de mundo, procuremos mudar este mundo. Da forma que pudermos, modestamente, mas com firmeza, sinceridade e até teimosia. Um dia, quem sabe…? Lembram daquela andorinha que tentava apagar o fogo da floresta com a água que conseguia transportar no seu bico? Era ingênua? Quixotesca? Não. Ela apenas fazia a sua parte.
[*] Segundo o prof. Google, “Akasha” significa “éter” ou “espaço” em sânscrito, e é um termo fundamental na filosofia hindu e outras tradições espirituais, representando o primeiro dos cinco elementos primordiais e um vasto campo de consciência. O conceito também é usado para descrever um registro de todas as experiências da alma, conhecido como “Registros Akáshicos”, que supostamente contêm informações sobre vidas passadas, presentes e futuras possibilidades.
Célio Heitor Guimarães é escritor, jornalista e consultor jurídico aposentado.
