O Brasil tem essa mania de suspender o tempo. Carnaval e Copa do Mundo param tudo! Quando é o futebol mundial, de quatro em quatro anos, a gente puxa o freio de mão da realidade e entra num estado de transe coletivo. Falta um mês, mas o país já mudou de tom. Basta olhar para o lado: os comerciais de TV estão saturados de conveniências e quinquilharias para o evento, as vitrines transbordam adereços sempre extravagantes, e aquele barulho inconfundível das vuvuzelas avisa que o show é pra valer e tem de continuar.

O mais curioso, porém, é o fenômeno cromático. O verde e o amarelo, que tinham um dono específico e causavam até certo receio em quem veste vermelho, finalmente voltaram para o domínio público. Na Copa, a bandeira deixa de ser palanque para ser festa. É a única época em que a gente aceita que a cor é o de menos, e a torcida é o de mais.

Enquanto isso, a vida lá fora tenta seguir. Escândalos, eleições fervendo, polêmicas no Master… tudo isso vira ruído de fundo. A grande questão diplomática do momento não é o PIB, mas sim o visto dos nossos jogadores na terra do Tio Sam. Afinal, uma Copa nos Estados Unidos tem esse ar de cinema, de imprevisibilidade, onde tudo pode acontecer, principalmente por conta daquele governante meio desvairado.

E para quem, como eu, carrega o Flamengo no peito, a expectativa é em dobro. Na pré-lista enviada pelo técnico Ancelotti à imprensa e à CBF, quase metade do time servindo à Seleção é um orgulho que não cabe na conta. É como se a Gávea emprestasse sua alma para o Brasil. A gente olha para o campo e vê um pouco de casa, um pouco daquela mística rubro-negra que nos faz acreditar que, mesmo com a cicatriz de um 7 a 1 na memória, o espírito do Tetra está logo ali, dobrando a esquina.

Mas a Copa nos Estados Unidos também tem esse ar de superprodução, de tapete vermelho e ingressos em dólar que fazem a gente arregalar os olhos. Para muitos, a jornada começou anos atrás, num exercício de engenharia financeira digno de mestre: vender o que não podia, parcelar o que não devia e economizar cada centavo para carimbar o visto e gritar “gol” em solo americano. É a torcida do sacrifício, que troca o conforto pela história.

Para a grande maioria — eu inclusive —, o destino é o “sofá-arquibancada”. Ficamos aqui, chupando o dedo para a viagem, mas com a corneta afiada. Enquanto o telão em Miami brilha com tecnologia de ponta, a gente se vira com o televisor puxado para a varanda. O curioso é que o sentimento não diminui pela distância. O brasileiro tem essa peculiaridade, que é a capacidade de transformar a frustração de não estar lá na maior festa de rua do mundo. Se não tem a grama perfeita de Los Angeles, tem a calçada pintada com as sobras de tinta da última reforma. Se não tem o hot-dog de estádio, tem aquele sanduíche caprichado, um pão com mortadela de respeito ou um pernil bem temperado que alimenta a alma e o grito de gol.

No fim das contas, a Copa é isso: um banho de esperança que a gente toma para esquecer as contas e os problemas. É o momento em que o Brasil, em toda a sua mistura de cores e crenças, decide que é hora de soprar a vuvuzela e torcer. Porque, se o futebol é o máximo, ver o país unido por ele é, no mínimo, revigorante.

Brasil está vazio na tarde de domingo, né?
Olha o sambão, aqui é o país do futebol
Brasil está vazio na tarde de domingo, né?
Olha o sambão, aqui é o país do futebol

(Aqui é o país do futebol -Milton Nascimento e Fernando Brandt)

 


Lea Oksenberg é jornalista.