Dizem que no Éden tudo era perfeito: clima ameno, sem mosquitos, sem boletos para pagar. Adão vivia deitado embaixo de uma figueira, Eva cuidava das flores, e a única regra era não comer do fruto proibido. Até aí, fácil. Quem em sã consciência iria trocar a vida eterna e confortável por uma reles fruta?

Mas Deus não especificou no contrato que a tentação viria embalada de uma maneira inesperada.

Sim, porque a serpente resolveu inovar. Maçã era muito discreta, elegante, até gourmet. Agora, jaca, jaca é exagero. É fruta que precisa de planejamento logístico. Não cabe em cesta de piquenique, não se descasca com delicadeza e ainda deixa um cheiro nas mãos que acompanha o vivente até o Juízo Final.

Eva, curiosa, olhou para a serpente equilibrando a jaca no rabo.

– Mas isso aí não é meio…grande demais? – perguntou, questionando a ergonomia da tentação.

A serpente, sedutora, respondeu:

– Grande, sim. Mas pense no sabor! Além disso, com uma só dessas você alimenta uma multidão. É quase um pacote família do pecado.

Eva olhou para Adão, que roncava sob uma árvore. Pensou: “Ele nunca ajuda em nada mesmo, pelo menos vou ganhar uma fruta diferente para variar desses figos sem graça.”

Quando finalmente abriu a jaca, o Éden nunca mais foi o mesmo. Primeiro, o barulho: um ploc pegajoso que atraiu todas as formigas do paraíso. Depois, a textura: Eva mordeu o primeiro gomo e ficou com fios grudados nos dentes.

Adão acordou com o cheiro.

– Que bafo é esse?

– É o fruto proibido – disse Eva, já com três gomos presos no cabelo.

– Mas não era maçã?

– Evolução do cardápio: agora é jaca.

Adão, que nunca recusava boca livre, catou um pedaço. Só depois percebeu que sua barba agora estava permanentemente colada. Tentou tirar os fiapos, mas só conseguiu espalhar ainda mais.

Deus apareceu com uma cara de poucos amigos e deu um berro:

– Parou, parou, parou! O que é isso aí?

E Adão, com um naco de jaca na boca, respondeu:

– A culpa é da serpente, ela trouxe essa comida por quilo.

Resultado: cartão vermelho sem VAR. Não por desobediência, mas porque o odor estava empestando o Éden inteiro. Até os querubins começaram a reclamar.

E assim se deu o verdadeiro pecado original: não somente a perda da inocência, mas o surgimento da primeira mancha. Daquelas impossíveis de sair da roupa que Adão e Eva passaram a usar a partir daquele dia.

 

Carlos Castelo é compositor, frasista e sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo.