Havia um grande incêndio na floresta. As chamas se espalhavam, e todos os animais fugiam, apavorados, tentando salvar a própria vida.
Enquanto isso, um pequeno beija-flor voava do rio até a floresta em chamas, levando uma gotinha de água no bico e jogando a gotinha sobre o fogo. Depois, voltava ao rio e repetia a operação.Intrigado com a cena, o leão parou de fugir e perguntou: “Ô, beija-flor, você acha que vai conseguir apagar esse incêndio sozinho?”.
E o beija-flor respondeu: “Eu não sei se vou conseguir, mas estou fazendo a minha parte”.
Todos os dias, em meio a este momento tão delicado e tenebroso, eu lembro do meu amigo Betinho. Ele, sempre que me via angustiada, desesperada e impotente, me contava a fábula do beija-flor.
Você também não consegue dormir por causa de preocupações, medos e ruminações? Seu radar fica ligado 24 horas por dia para antecipar possíveis catástrofes e encontrar alguma proteção contra ameaças cada vez mais assustadoras?
Você também acha insuportável viver como se uma sirene de emergência estivesse ligada no volume máximo na sua mente o tempo todo, principalmente quando está tentando dormir?
De que adianta tanto desespero e ansiedade? Será que existe alguma forma de se sentir um pouco mais segura com tudo o que pode acontecer amanhã?
Eu também sofro muito com meus medos, angústias e preocupações. Como sempre procuro transformar o sofrimento em alguma forma de ação significativa, inventei uma ferramenta que tem me ajudado a dormir um pouco nas minhas noites de pânico: a “ruminação produtiva”.
Por exemplo, costumo ruminar pensamentos catastróficos durante a madrugada. “E se eu não dormir a noite inteira? E se amanhã eu estiver péssima e não conseguir dar minha aula como planejei? E se eu tiver um ataque de pânico na frente dos alunos e alunas?”
Ficar o tempo todo no “e se…” não resolve nada. Apenas aumenta meu pânico e agrava minhas torturantes noites de insônia.
Agora, para sobreviver em tempos de cólera, descobri uma forma de diminuir as ruminações. Levanto, escrevo, leio, escuto audiolivros, faço alguma coisa produtiva. E, em vez de tentar obsessivamente afastar as preocupações para dormir, passei a exagerar meus medos e angústias.
“Nunca mais vou conseguir dormir com tantas guerras, tanta violência e tanto ódio. Em cinco anos estarei acordada por 43.800 horas. Vou virar meme: ‘Mirian Goldenberg, a antropóloga que nunca desliga com pânico do fim da democracia no Brasil e no mundo’”.
Miriam Goldenberg é antropóloga e escritora.
