Fui votar e a fila estava daquele jeito que indica algum tempo de espera. A mulher à minha frente puxou conversa. Em mais de uma hora na espera, a conversa foi me lembrando que este era o primeiro grande encontro entre direita e esquerda, desde que a política no país tomou este novo caminho de arquibancada.
Foram três torpedos para ficar ali tentando imaginar em quem aquela senhora votaria. A primeira revelação veio diante de sua manifestação sobre uma araucária exuberante no pátio da escola onde votamos. Uma árvore daquelas que ainda dão alguma dignidade à paisagem de Curitiba.
— Isso é um perigo. Tem que derrubar. Árvore é para ficar no mato. Não dentro de uma cidade grande, colocando em risco a vida das pessoas, me disse a mulher.
Entendi que a coitada da araucária, aparentemente, havia cometido o erro imperdoável de nascer no lugar errado.
A fila finalmente começa a andar e a conversa também. E assim vieram outras informações.
Os filhos dela, todos, haviam estudado no Colégio Militar. Por isso, ela morou no Jardim Social, bairro próximo do Colégio MIlitar.
Nós dois ex-moradores do Jardim Social, ela por motivos afetivos ainda mantinha o bairro como sua zona eleitoral, eu por não ter endereço fixo em Curitiba, morador há anos de Matinhos, litoral paranaense.
Enquanto conversávamos, ela passou alguns minutos também muito concentrada no celular, pesquisando imóveis de alto padrão no litoral de Santa Catarina. “Casas, apartamentos, condomínios”, dizia ela. Porque do litoral do Paraná, ela não gostava.
“Tudo muito ruim e bem longe do meu gosto por lá”, me disse ela quando perguntei sobre Matinhos, onde tenho vivido.
Mudei o tema da conversa ainda interessado em me aprofundar sobre suas opiniões. Aquilo mais parecia um estudo sociológico.
Quando digo que saí do Centro de Curitiba até o Jardim Social de ônibus coletivo para estar ali e votar, ela me olha confirmando sua impressão sobre mim. A esta altura não fala nada, só me olhando como se eu fosse um extraterrestre.
Eu tinha ido votar de ônibus e ela de carro. Não que isso seja grave, porque naquele contexto aquilo não tinha a menor importância, pelo menos pra mim.
Depois de mais algumas opiniões, fui para a cabine de votação. Antes, da porta da sala de votação, fiquei observando ela dedilhando seus candidatos, ao som do “confirma ” da urna eletrônica. Aquilo parecia trilha sonora da nossa conversa. Um voto de cada vez, seis vezes.
Em quem ela votou?
