Tenho algumas opiniões despretensiosas sobre o futebol, paixão que vem da minha infância. São coisas simples, repletas de sentimentos, nada mais. Na verdade, faltam-me dados para comprovar seja lá o que for, mas o certo é que a seleção brasileira me fez perder o que talvez restasse de fé. Não creio que possamos, um dia, reconquistar o mundial. A elitização do esporte, a mercantilização extrema dos espaços e do tempo em que as partidas são disputadas, a padronização das arenas, as transmissões horríveis dos jogos, os influenciadores abobalhados, o entusiasmo artificial dos “fãs”, tudo provocou o surgimento de uma realidade em que não há lugar para sonhos.

Para piorar, a exaltação das apostas e os convites insistentes para o consumo desenfreado se impuseram definitivamente aos nossos olhos e aos nossos sentidos. Na Copa do Mundo, esses ícones capitalistas se multiplicaram como praga, colados nos sovacos de suas excelências, os apitadores, nas placas de avisos e substituições, nos mantos outrora sagrados dos times ou na postura arrogante do VAR. Quem ganha com isso, como de costume, são as máfias do dinheiro e do poder, que existem para acabar com qualquer resquício de alegria coletiva e matar as expressões culturais autênticas. Vale o que o mercado ordena, o que o mercado quer. Sempre foi assim, não se nega, mas chegamos a um patamar que beira o insuportável.

O “novo normal”, em que o ganhar e o perder não passam de detalhes sem importância, esmagou as grandes escolas de futebol, entre as quais nós éramos o maior destaque. Durante muito tempo, fomos admirados pela genialidade de craques formados na várzea, nas ruas, pela magia dos dribles dos nossos ídolos, pela ginga, pelo improviso e pela criatividade. Coisas que não existem mais em lugar nenhum. O lúdico foi substituído pela disciplina acrítica e obediente. Meninos que brincavam com bolas surradas em campinhos de terra ficaram no passado, enquanto eventuais promessas estão sendo sequestradas por empresários para serem vendidas como mercadoria exótica a grandes corporações financeiras. O futebol ficou feio, despersonalizado, sem povo.

Transformamo-nos, enfim, numa seleção mediana. Nossa camisa desbotou, e os narcisistas escalados para vesti-la de vez em quando, seduzidos pelo brilho da fama traiçoeira, podem até enganar, mas não encantam. Sem alma e sem vontade, eles vivem para engordar seus investimentos e consolidar suas marcas individuais, a serviço de bets, instituições bancárias, cartolas nojentos e governantes autoritários.

O Brasil fracassou no domingo triste em que perdemos da Noruega? Para nós, os românticos, sim. Mas não para os que mandam no negócio. Para eles, tudo correu bem. Sob o comando de um técnico forasteiro, contratado por muitos milhões de moedas, apagaram a alma brasileira, impuseram a convocação de um Neymar que não existe mais – ou que nunca existiu – e seguiram o roteiro mínimo traçado pela gigantesca máquina de entretenimento criada para aumentar seus patrimônios.

O menino Ney, afinal, conseguiu entrar no meio de um jogo em que estávamos empatados. Sua presença em campo desestruturou a equipe, implodindo o débil esquema tático que orientava os jogadores, e levamos dois gols dos grandalhões nórdicos. Mas nada disso importa. Já bem depois dos descontos, num lance esquisito, o juiz da partida marcou pênalti a nosso favor. O parceiro das bets e das baladas, então, foi para a bola, provocou o goleiro adversário, fez o gol e voltou a protagonizar cenas de egocentrismo e irresponsabilidade. Faltavam poucos segundos para o Brasil sair da Copa, mas ele optou, nos instantes derradeiros do jogo, por uma encenação ridícula, um bate-boca com os noruegueses. Para coroar o desempenho canastrão do ator, o apito final foi seguido de um choro – de araque? – no centro do gramado, de encomenda para cortes dramáticos a serem exibidos em redes sociais.

Num campeonato em que o chefe da autointitulada maior democracia do Ocidente decretou a anulação do cartão vermelho dado a um conterrâneo seu, com a complacência vergonhosa da Fifa, que também se curvou bovinamente a outras atrocidades, como o racismo, a misoginia e a xenofobia, está tudo bem. Daqui a quatro anos, nada mudará. Mais uma vez, disputaremos um lugar entre os concorrentes médios, e os canalhas de sempre, vendedores de ilusões, ficarão satisfeitos com os seus lucros bilionários.

 

Mário Montanha Teixeira Filho é consultor jurídico aposentado.