Os meninos da turma, a maioria deles, se reuniram num canto do pátio. Eram vozes que se misturavam numa espécie de protesto contra a rotina incômoda. Naquele dia, o Paraguaio, sem nenhum motivo aparente, sem nenhuma palavra, mal chegado à escola, havia metido a mão na cara de um dos seus colegas. Não explicou nada, apenas repetiu uma cena comum e cada vez mais frequente, que ninguém ousava contrariar. Restava ao grupo, oprimido e incapaz de reação, se conformar com a espera melancólica pelo próximo acesso de fúria.

Paraguaio era uma figura alta e magra, cabelo espesso e músculos bem distribuídos pelo corpo adolescente, olhos pequenos e agitados que pareciam buscar incessantemente um destino, um acontecimento, uma razão – ou a próxima vítima. Tinha a força de um cavalo, mas aplacava a selvageria da sua existência quando seu único amigo, o mais miúdo da sala, o que lhe dava um pouco de atenção durante as aulas e no recreio, o cumprimentava com frases ligeiras e quase afetuosas.

Nenhuma deliberação veio da assembleia dos condenados à surra iminente, apenas o registro notarial do pânico. Tempos sombrios, de armas nas ruas e castigos impostos por autoridades fardadas e pelos donos do educandário tradicional, um prédio velho de corredores enormes e salas com cheiro de mofo. Ali dentro, igual ao que acontecia no lado de fora, a regra de sobrevivência era o silêncio.

Talvez inspirado pela seletividade da ordem, um sistema em que poucos tinham permissão para tudo, o professor de educação física chamou o Paraguaio para uma conversa. Manhã fria de céu cinzento, intervalo entre duas aulas, o pátio estava deserto e o Paraguaio foi lá. O professor o encarou por alguns segundos, longos segundos de contemplação, cara a cara, não disse nada e, num gesto rápido, desferiu o golpe, a chave de braço que imobilizou o Paraguaio. De longe, os sparrings testemunhavam a cena, curiosos diante da imagem dos dois corpos imóveis largados no chão de areia.

Durou alguns minutos o estranho capítulo pedagógico, receita para moldar o caráter do menino-homem, ainda coadjuvante, ainda sem compreender os segredos da lei vigente. Enfim libertado, o Paraguaio se levantou, trôpego e pálido, para voltar lentamente à sala de aula. Antes, esbarrou em seus colegas, sem enxergar nada, olhos vidrados, cheios de tristeza, como cavalo que caminha sem destino, exausto. Olhos que só recuperaram o brilho quando deram com o rosto conhecido, o do único amigo, terno, discreto e generoso.

Foi assim. Nada se disse nas semanas seguintes, nada nas que vieram depois. Cumprida a regra do silêncio, a vida avançou, sem graça. Até que, num dia de chuva intensa, o Paraguaio, mal chegado à escola, meteu a mão na cara de um dos seus colegas. Fez o de sempre, sem nenhuma palavra. E as cabeças confusas a indagar o que se passava, sem saber por que teria que ser daquele jeito. E o conformismo inevitável, a restauração do medo, a liberdade sepultada outra vez.

 

Mário Montanha Teixeira Filho é consultor jurídico aposentado.