2026 começou com promessas. Promessa de produtividade, de foco, de “agora vai”. Mas aí veio o calendário e disse: “Ah, vai nada”.
Janeiro já veio devagar, manhoso, como quem acorda de ressaca. Dia 1º foi feriado (óbvio), e o pessoal resolveu emendar até o dia 8, porque iniciar o ano numa terça é contra a fisionomia emocional do brasileiro.
Fevereiro? Carnaval. Oficialmente três dias, na prática duas semanas. As empresas tentaram resistir, inventaram o “home office de concentração”, mas era difícil ouvir o barulho do teclado entre um batuque de bloquinho e outro.
Março quase foi sério, quase. Mas aí caiu um feriado numa quarta-feira. Aí você pensa: “Não dá pra emendar, né?”. Claro que dá. Brasileiro é campeão mundial em engenharia de pontes: só que as nossas são entre terças e quintas.
E foi ali, em março, que aconteceu a grande cena de 2026:
Na sala de reuniões da empresa Silva & Cia, o gerente Cláudio convocou a equipe para uma reunião de planejamento. Era a única quarta útil do mês. Às 9h em ponto, Cláudio entrou, com uma apresentação de 84 slides e um entusiasmo que só ele sentia. Mas os funcionários, nada. Nem sinal. Depois de 10 minutos, apareceu a Suelen, de Havaianas e com a câmera do Zoom apontada para o teto.
— Suelen, cadê o pessoal? — perguntou Cláudio.
— Ah, chefe, o João foi pra pousada da sogra. A Marlene disse que ia trabalhar da praia. E o Vitor, acho que tá num bloco fora de época em BH.
Cláudio olhou para a tela. Silêncio.
— Mas hoje é dia útil!
— Pois é, mas o pessoal já tinha comprado passagem. E o Vitor falou que quarta no meio da semana nem conta como dia.
Voltando ao calendário:
Abril trouxe a Paixão de Cristo e Tiradentes. Dois feriados com cara de “vamos refletir”, mas a única reflexão que rolou foi: “Será que dá pra viajar e voltar só no mês que vem?”
E, por falar em mês que vem, maio trouxe mais um feriado e um aviso no site GOV.BR: “Brasil se encontra momentaneamente indisponível.”
Junho. Copa do Mundo. A produtividade foi oficialmente exilada. Cada jogo da Seleção virou feriado não oficial. E quando o Brasil ganhava (ou perdia), era mais um dia parado.
Julho? Férias escolares. Os pais tentando trabalhar com crianças penduradas no pescoço. As reuniões por câmera pareciam gravações do Discovery Kids.
Agosto tentou ser sério, coitado. Mas ninguém acreditou nele.
De setembro a dezembro foi só ladeira abaixo. Feriado na Independência, Finados, Proclamação da República e Natal. O país basicamente viveu de quinta a domingo. O resto virou intervalo comercial.
No fim do ano, o governo lançou o “Plano Nacional de Produtividade”, apelidado de PVV: “Plano Vamos Ver”. Mas ninguém viu nada. Estavam todos na montanha, no churras, ou tirando um cochilo patriótico.
2026 foi o ano em que o Brasil parou. Mas com estilo. Com samba, futebol e muita soneca. E talvez, só talvez, seja essa a revolução que a gente precisava: menos pressa, mais ponte. E, se possível, um gol no último minuto.
Carlos Castelo é compositor, frasista e sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo.
