Desde menino ouço dizer que os parques são a praia do curitibano.

Sempre achei curiosa essa frase, quase uma piada de quem se conforma com o frio, o céu fechado, as manhãs de neblina e o vento que parece ter nascido nas montanhas.

Mas, naquele dia quente no Parque Tanguá, ela se confirmou diante dos meus olhos, quando avistei um grupo de pessoas entre as pedras.

Crianças molhavam os pés; homens e mulheres, de bermudas, bonés e coolers, riam e se divertiam como se estivessem à beira-mar, aproveitando os intervalos da vida.

De repente, a expressão “a praia do curitibano” deixou de ser metáfora, era verdade viva, espalhada sobre as rochas do Tanguá.

Sentei-me sobre uma pedra, à beira do lago, com minha câmera Canon pendurada no pescoço. Fiz alguns registros da vida fluindo como o rio diante de mim: o sol refletindo nas águas calmas, o vento brincando com as sombras, um silêncio morno envolvendo tudo.

Aos poucos, deixei o olhar se desfazer da pressa — e, sem perceber, comecei a me conectar com aquele fluxo manso, como se o Barigui me contasse sua história.

Nasce em Almirante Tamandaré, discreto, quase tímido.

Cresce entre as curvas da Grande Curitiba, cruzando bairros, parques, pontes e histórias.

Carrega folhas, reflexos e o murmúrio das manhãs frias. Alimenta o Parque Barigui, repousa um instante no Tanguá e segue levando consigo a energia e a garra de cada curitibano, porque os rios, como a vida, nunca param; apenas se transformam.

Corre entre pedras, se mistura ao concreto, e, quando parece cansado, entrega-se ao Rio Iguaçu, maior e mais antigo, que o acolhe sem pressa.

Juntos, seguem rumo ao Rio Paraná, numa longa travessia que corta o estado e atravessa fronteiras até encontrar o Rio da Prata, já distante, onde as águas brasileiras se misturam às argentinas e uruguaias antes de finalmente tocarem o Oceano Atlântico.

É um percurso imenso, uma verdadeira via-sacra de rios que, mesmo distantes do mar, jamais desistem de alcançá-lo.

De um lado, o oceano: vasto e soberano, dono dos ventos e das marés.

Do outro, o Barigui e seus irmãos de água doce: feitos de nascentes pequenas, fortalecidos por chuvas e serras, pelas cidades que os cortam e os moldam.

Quando se encontram, há luta e reverência, o rio chega cansado, mas inteiro; o mar o recebe com força, impondo seu sal e sua eternidade.

Do choque das águas nasce um novo corpo, o sal temperando a doçura da terra, provando que são dois que formam um só gigante.

Talvez por isso os curitibanos chamem seus parques de praia.

Porque, de algum modo, o mar está aqui também — nas águas que um dia partiram daqui, na brisa que sobe da serra, nos sonhos que seguem o curso do Barigui até o infinito. Fiquei ali por alguns minutos, observando o reflexo do sol se partir nas ondas leves.

A câmera repousava sobre o colo, esquecida.

E percebi que, assim como o rio, todos nós buscamos um encontro, mesmo que seja preciso atravessar pedras, curvas e silêncios para chegar até ele.

No fim, entendi que o que nos torna maiores é justamente a junção do diferente: cada um com suas particularidades, mas juntos, sempre mais fortes.

Como o rio e o mar – distintos, mas inseparáveis.