Só agora me recuperei da morte de Claudia Cardinale.
Recuperar é modo de dizer. No fundo, ainda estou largado no terreiro, como se tivesse levado um golpe baixo da Sétima Arte, de Popó e Wanderlei Silva ao mesmo tempo.
Claudia não era apenas atriz: era a prova viva de que a gravidade funcionava de modo seletivo. Quando entrava em cena, até o figurante mais disciplinado esquecia sua marca. E nós, do lado de cá da tela, esquecíamos até o nome de batismo.
Cardinale tinha aquele sorriso que reservava um segredo, como se dissesse: “Se eu contar, você desmaia”. E a gente acreditava. Ela era capaz de fazer um faroeste virar poema, um drama histórico virar piquenique, e um adolescente como eu se tornar um priápico.
A notícia da sua morte me chegou como carta extraviada: atrasada, mas verdadeira. Resta o consolo: se o cinema é a máquina de eternizar, Claudia ainda seguirá viva e monumental em cada frame.
Carlos Castelo é compositor, frasista e sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo.
