Quando decidi escrever Museu de musas (Editora Urutau, 2025), não pensei em literatura, nem em mercado editorial, nem sequer em leitores. Pensei apenas em não perder o fio de uma conversa antiga que mantenho comigo mesmo: o diálogo com o tempo, com a memória e com o amor.
Há um instante – quando o homem já não é jovem, mas ainda não se acostumou a ser velho – em que ele começa a colecionar ausências. São as pessoas que partiram, os lugares que mudaram de rosto, os gestos que não se repetem. Eu, talvez por teimosia, decidi transformar essas ausências em presença. Cada poema deste livro é, no fundo, um bilhete atrasado, uma carta que nunca cheguei a enviar.
As musas que aqui habitam não são monumentos. Não se trata de glorificar amores, mas de reabrir a porta de quartos, bares, praças, camas e silêncios onde, em algum momento, senti que estava vivo de uma maneira irrepetível. Escrevo com elas, não sobre elas. Pois um amor, seja de minutos ou de décadas, é sempre uma coautoria.
Alguns dirão que é vaidade um homem mais velho publicar suas lembranças sentimentais. Talvez seja. Mas é também um gesto de gratidão. Não pretendi eternizar a juventude perdida, mas apenas reconhecer que o que sou agora, nesta idade de cabelos brancos e passos mais lentos, só existe porque houve risos, olhares e até discussões que me atravessaram.
Um museu não guarda somente relíquias: preserva também o espanto. O pasmo de rever uma cor, uma voz, uma sombra que o tempo parecia ter apagado. Em Museu de musas, quis fazer a curadoria desse relicário. Não para me proteger da passagem dos anos, mas para agradecer por eles terem passado tão cheios de ardor.
E se alguém, ao abrir estas páginas, reconhecer no meu museu um reflexo de sua própria história, já me darei por satisfeito. Porque o amor, mesmo impossível, mesmo interrompido, continua sendo a única herança que resiste à ferrugem do tempo.
Assim, declaro inaugurado o Museu de musas. Sua grande vantagem é não ter fila, não ter ingresso e não precisar de guia turístico. É só abrir o livro e passear pelos corredores de poemas.
Minhas musas estão todas lá, mas sem crachá, sem nome. Afinal, o bem-querer não precisa de RG para ser universal.
Carlos Castelo é compositor, frasista e sócio fundador do grupo de humor Língua de Trapo.
