A leitura – e, por decorrência, a escrita – é um dos maiores prazeres da vida. Através de leitura instrui-se, distrai-se, diverte-se, viaja-se, povoa-se a mente, desenvolve-se a imaginação, cria-se, cresce-se, vive-se, enfim. São infindáveis os benefícios decorrentes dela. Alguns até curiosos. Mário Quintana, por exemplo, desde muito pequeno, lia tudo, inclusive o semanário O Tico-Tico, avô das revistas infantis produzidas no Brasil. “Uma das coisas que mais me impressionavam” – confessava o poeta – “era o que os personagens fariam depois de terminada a história”.
Também não há companhia melhor do que a leitura, não importa o local, a idade, a atividade ou o grau de educação do leitor. O problema é fazer com que os meninos e as meninas de hoje entendam isso. Sobretudo diante da quantidade de ofertas tecnológicas, de irresistível atração, à disposição deles. E nem me refiro mais à televisão. O diabo moderno são os games, os tablets, os celulares e afins.
As crianças gostam de aprender. São curiosas por natureza, querem descobrir o mundo. Mas é preciso saber ensiná-las. Fazer uma criança ler por dever, será uma tragédia. Ela odiará a leitura a vida toda. Ler não pode ser uma obrigação, nem hábito, mas prazer, alegria. Indagaram a Rubem Alves o que fazer para criar o hábito da leitura. A resposta dele foi imediata: “Nada”. Em seguida, explicou: “Hábito tem a ver com cortar as unhas, tomar banho… Os hábitos produzem ações automáticas… O que há de se fazer é ensinar as crianças a amar os livros”.
Por isso, é necessário ter o cuidado de oferecer às crianças o livro certo, na idade certa. Há autores péssimos, outros descartáveis e outros ainda, insuportáveis, se lidos no momento errado. Obrigue-se um menino de onze anos a ler Camões, Eça, Machado ou Euclides da Cunha e ele detestará Camões, Eça, Machado e Euclides. Rubem Alves, com a vida toda ligada à educação, dizia que se fosse ensinar a uma criança a arte da leitura, não começaria com as letras e as sílabas: “Simplesmente leria as estórias mais fascinantes que a fariam entrar no mundo encantado da fantasia. Aí então, com inveja dos meus poderes mágicos, ela desejaria que eu lhe ensinasse o segredo que transforma letras e sílabas em estórias”.
Eduardo, meu neto, quando aluno da 8º série do primeiro grau, chegou da escola com uma novidade: a professora passara aos alunos, como tarefa, a leitura de O Alienista, de Machado de Assis, em quadrinhos… Estava entusiasmado com a ideia. Fiquei sem saber se, em meio à modernidade, daria resultado. Não deu. Hoje, engenheiro mecânico formado, leitura para Eduardo só as obrigatórias. Já com a irmã dele, a Fernandinha, terceiranista de medicina, deu. A leitura e a escrita facilitaram a sua vida escolar e o seu ingresso na faculdade. Até hoje, adora os livros e com eles vai aos plantões médicos.
Comigo também deu certo: no meu tempo, em que os gibis eram tidos como malditos e não tarefa escolar, li todos os clássicos da literatura nacional e internacional (até a “Odisseia”, de Homero – pasmem!) em versão quadrinizada, nas saudosas “Edições Maravilhosas”, da Ebal, de Adolfo Aizen. Depois, seguindo o conselho do editor, fui aos originais escritos. Nunca me arrependi. Hoje, amo os livros, pela forma e pelo conteúdo, gosto de senti-los nas mãos, acariciar o papel, sentir o cheiro da tinta da impressão. E acho que até aprendi um pouco a escrever.
Célio Heitor Guimarães é escritor, jornalista e consultor jurídico aposentado.
